Mudando de território, uma jornada por uma vida melhor: A migração do Rio Grande do Norte para o Guarujá – São Paulo, uma narrativa de Raimundo e Irismar

Como citar: Menezes Assef, Matthaeus. “Mudando de território, uma jornada por uma vida melhor: a migração do Rio Grande do Norte para o Guarujá – São Paulo, uma narrativa de Raimundo e Irismar” CAMAMAZON. 09/07/2026. Disponível em: https://camamazon.aber.ac.uk/pt/2026/07/09/mudando-de-territorio-uma-jornada-por-uma-vida-melhor-a-migracao-do-rio-grande-do-norte-para-o-guaruja-sao-paulo-uma-narrativa-de-raimundo-e-irismar/ acessado em (xx/xx/xxxx).

Diante do compromisso de escrever um blog sobre território, após escrever um texto sobre a história caiçara da minha avó, decidi apresentar, nesta ocasião, as perspectivas e as vozes do sertão. No Brasil, muitas pessoas migram do Nordeste para outros estados em busca de uma melhoria de vida, e, nesse contexto, as histórias de Raimundo Novo Sarmento (75 anos) e Irismar Alves de Oliveira Sarmento (71 anos) evidenciam uma trajetória de migração, luta por moradia e vivência das transformações ambientais e urbanas do Guarujá, cidade onde eu nasci.

Raimundo e Irismar são avós de Matheus Oliveira, com quem estudei desde os meus 11 anos. Crescemos como melhores amigos, jogando bola, videogame, até que muito cedo, aos 13 anos, ele começou a trabalhar na vendinha do seu avô. Lembro de ficar por lá, fazendo companhia à Matheus e ouvindo as histórias dos seus avós, na mesma época em que estudava o livro Vidas Secas, que narra a vida sofrida de uma família nordestina que enfrentou muitas dificuldades econômicas e sociais para viver na roça, devido às secas e questões climáticas. Por tudo isso, resolvi conversar com eles.  

Ambos, Raimundo e Irismar, contam que viveram uma infância profundamente ligada à terra. Nascidos e criados na roça no Rio Grande do Norte, Nordeste Brasileiro, Raimundo começou a trabalhar ainda criança, aos sete ou oito anos, aprendendo com os pais e avós o cultivo de arroz, feijão, milho, algodão e outras coisas. Raimundo relatou que sentia falta de andar na mata, que caçava passarinhos, pescava e que tinha muita onça, raposa, lagarto. Para ele, “depois que a gente sai da agricultura, a gente ainda sente saudade. Já de– daquela liberdade que a gente tinha de vivre na roça, que é muito gostoso, assim. Pessoa vivendo todo dia na, a– vendo aquelas coisa diferente, pra tá morando numa cidade, né? É um pouco, é um pouco diferente mesmo, né?” 

Raimundo também descreveu como a vida na roça era sofrida: “a casinha no sítio, não tinha luz, não, não tinha água encanada, tudo i– dependia da, da gente, né?”. Todavia, mesmo diante dessas dificuldades, totalmente dependente das chuvas e da produção agrícola (Melo, 1999), existia na entrevista um sentimento de saudade da roça, uma memória afetiva da liberdade da vida no campo e do contato cotidiano com a natureza longe da cidade. 

Irismar, por sua vez, relembrou principalmente das dificuldades com a escassez de água e o isolamento do sítio: “Foi muito sofrida a minha vida na, na, na roça, no sítio. Eu, eu não trabalhava na roça, não, mas minhas irmã trabalhava. Eu sempre, assim, eu tinha alergia de, de pó de, dos matos, dos pelo, eu nunca trabalhei não, mas era sofrido. Não tinha água, era, é, faltava água, não tinha água encanada, era água de poço, às vezes faltava, e foi muito sofrida a minha vida, antigamente. Aí eu vim pra cá, foi melhorando.”

Embora Irismar não trabalhasse diretamente na lavoura por questões de saúde, ambos destacaram que àquele conhecimento familiar sobre a terra, plantar, colher e reconhecer o tempo certo da natureza foi aprendido com as gerações anteriores, mas não foi totalmente transmitido às suas filhas e netos. Como o casal descreveu, a agricultura nordestina é um trabalho de extrema instabilidade econômica, e para eles, assim como para muitas famílias, a migração para o Guarujá aconteceu em busca de sobrevivência e melhores condições de vida.

No final da década de 1970, Raimundo chegou primeiro ao litoral paulista. Naquela época, trabalhou como ajudante de obra e se instalou em uma das primeiras casas no morro da Vila Baiana, no Guarujá. Depois, Irismar veio com os filhos. Os primeiros anos foram vividos no morro, segundo eles, em condições precárias. Depois eles se mudaram para morar em um quartinho na casa de um conhecido. 

Os relatos revelaram um Guarujá muito diferente do atual. Eles contaram que a região da Vila Baiana era uma área de mangue, lama, mato fechado e poucos barracos espalhados no morro. Ambos relataram que: “não tinha a Dom Pedro- Era tudo mato. E aqui era, era, era tipo mangue, sabe? Era cheio de água, de lama, muito mato, muito pássaro, sabe? Então a gente hoje estranha porque não tem nada disso. Tudo é construído”. Não havia linhas de ônibus, asfaltamento ou infraestrutura urbana. O bairro onde vivem hoje era dominado por pássaros, água e vegetação. Aos poucos, por meio do trabalho informal e da autoconstrução, Raimundo saiu do morro e foi para um lugar próximo ao morro. Ergueu sozinho a casa de alvenaria onde vivem até hoje, trabalhando “de noite e de dia” para construir o seu lar. 

Pela perspectiva de Irismar, essa trajetória também evidencia as contradições da transformação ambiental do território. O espaço antes ocupado por mangues e mata foi gradualmente urbanizado. O silêncio da natureza deu lugar ao trânsito, ao crescimento populacional e à violência urbana. Segundo Irismar: “o Guarujá hoje é-é ruim, assim, aqui onde a gente mora, e praticamente, é quase em todo canto. Tem muita violência, muita coisa assim. Embora que em todo canto tem, né?”. 

Nas suas vozes, apesar de reconhecerem que a qualidade de vida melhorou materialmente, principalmente pela conquista da casa própria e da possibilidade de dar uma vida melhor aos filhos e netos, os dois demonstram nostalgia pela tranquilidade da roça e, principalmente para Raimundo, pelo contato mais próximo com a natureza, pela conexão com a roça e com o plantio.

Este blog faz parte de uma conversa entre os integrantes do projeto CAMAMAZON sobre a nossa relação com os territórios de uma etnografia multiterritorial. Para ver mais conteúdos da série, confira: Territórios