Como citar: Maso, Tchella. 2026. “O Trânsito: corpos, territórios e o internacional.” CAMAMAZON. Disponível em: https://camamazon.aber.ac.uk/pt/2026/09/30/o-transito-dos-corpos-territorios-e-o-internacional-minha-introducao-ao-projeto-camamazon/. Acessado em (xx/xx/xxxx).
Meu nome é Tchella Maso. Sou professora e pesquisadora de Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UnB), situada na capital do Brasil, na região Centro-Oeste do país. Também mantenho meu vínculo com a Universidade Federal de Roraima (UFRR), localizada no estado mais setentrional do Brasil, na região amazônica. Minha pesquisa articula feminismos, povos indígenas, gênero, sexualidades e política global, com atenção especial às mulheres indígenas e às dissidências sexuais e de gênero.
Meu interesse pela política climática nasce dessa trajetória mais ampla. A partir da antropologia feminista, investigo como o internacional é vivido através dos corpos, dos territórios, da vida cotidiana e das diferentes formas de sentir e habitar o mundo. Procuro trabalhar entre escalas, conectando as experiências cotidianas e os territórios aos processos internacionais que os atravessam. Nesse percurso, sigo inspirada pelo convite zapatista a imaginar um mundo onde caibam muitos mundos.
Minha relação com a Amazônia também é pessoal. Vivi durante dois anos em Boa Vista, Roraima, por meio do meu vínculo com a UFRR. Foi uma experiência fascinante, tanto no plano pessoal quanto no acadêmico, que aprofundou meu desejo de me aproximar dos mundos amazônicos, de seus conflitos e de seus futuros possíveis. No entanto, esse desejo não nasceu unicamente em Roraima. Remete a uma experiência anterior em Dourados, no estado de Mato Grosso do Sul, na região Centro-Oeste do Brasil, na fronteira com o Paraguai, onde conheci as duras realidades enfrentadas pelos povos Guarani e Kaiowá diante da expansão permanente do agronegócio e das violências que essa expansão produz. Remete também ao período em que vivi em Foz do Iguaçu e trabalhei na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), na fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, onde me apaixonei pelo nosso continente. Juntas, essas experiências cultivaram em mim um desejo pelo trânsito, — la frontera (pela fronteira) —, no sentido proposto por Gloria Anzaldúa (1987): não uma linha de separação, mas um espaço de tensão, encontro e possibilidade onde se forjam novas formas de pensar e existir.
No CAMAMAZON, quero investigar como as mulheres indígenas e as dissidências sexuais e de gênero mobilizam a Amazônia na política climática, especialmente em torno da COP30 e da COP31. Entendo a Amazônia como um espaço relacional constituído por diferentes mundos, relações e modos de existência. Minha pesquisa se concentra especialmente no trabalho da ANMIGA e do Coletivo Tybyra, assim como nas formas pelas quais suas práticas políticas desafiam as concepções dominantes de governança climática.
Este trabalho também se relaciona com minha participação na Rede Arandu e no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Caleidoscópio, onde venho desenvolvendo pesquisas feministas e queer com povos indígenas e outros sujeitos historicamente marginalizados. Essas experiências me ensinaram a permanecer atenta às possibilidades de imaginar outros futuros e, ao mesmo tempo, a resistir às soluções fáceis e às novas formas de colonização.
Para mim, investigar a política climática significa perguntar o que acontece quando as negociações internacionais se encontram com territórios, corpos, memórias e vidas cotidianas, e são interpretadas a partir da epistemologia feminista. Interessa-me profundamente compreender como a mudança climática é sentida e vivida em diferentes mundos, assim como pensar a própria tradução e sua busca por alternativas.
Talvez, em última instância, minha pesquisa trate de aprender a permanecer com o problema, como propõe Donna Haraway (2016). Isso implica cultivar a curiosidade, prestar atenção a caminhos pouco habituais e realizar um esforço de imaginação, contemplação e conexão. Implica também resistir às respostas simples e permanecer atenta aos mundos, às relações e aos futuros que continuam sendo imaginados.
Referências
Anzaldúa, Gloria. 1987. Borderlands: The New Mestiza = La Frontera. San Francisco: Aunt Lute books.
Haraway, Donna J. 2016. Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene. Duke University Press.
