A sociedade civil e os políticos juntos foto tirada por Manoella Marinho.
Como citar: Menezes Assef, Matthaeus. 2026. “Um evento entre a sociedade civil e formuladores de políticas para levantar preocupações no âmbito da política climática brasileira.” CAMAMAZON. Disponível em: https://camamazon.aber.ac.uk/pt/2026/11/04/um-evento-entre-a-sociedade-civil-e-formuladores-de-politicas-para-levantar-preocupacoes-no-ambito-da-politica-climatica-brasileira/. Acessado em (xx/xx/xxxx).
No cenário atual das crises climáticas globais, debater o futuro do meio ambiente exige encarar não apenas os dados da ciência, mas também as profundas desigualdades sociais que atravessam os territórios. Em um evento intitulado “Nova política – meio ambiente, clima e direito à cidade”, organizado por Paulo Rogério Noggerini Jr. (também conhecido como Paulo Juventude), vereador da cidade de São Roque-São Paulo (SP), que reuniu Marina Silva, que comandou o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima entre janeiro de 2023 e março de 2026, o Deputado Estadual – SP, Guilherme Cortez (a partir de janeiro Deputado Federal), e lideranças da sociedade civil, tive a oportunidade de integrar um espaço fundamental de disputa de narrativas e construção de propostas.
Neste blog, quero colocar no centro não só os políticos que já trabalham com a pauta ambiental e climática, mas sobretudo as pessoas que vivem, trabalham e sentem todos os dias os efeitos da crise climática. Por isso, trago um relato das principais intervenções: da urgência de combater o negacionismo climático à defesa do protagonismo das periferias e dos trabalhadores da reciclagem, passando pelo papel estratégico da comunicação digital na transformação social. O objetivo é amplificar as vozes da sociedade civil e deixar claro o que estamos pedindo para políticos e tomadores de decisão.
A voz da sociedade civil
Eu tive a honra de representar a sociedade civil no evento, na qualidade de comunicador científico e assistente de pesquisa do CAMAMAZON. Aproveitei a oportunidade para levar ao debate dados que farão parte do meu futuro blog focado no El Niño. Em minha fala, expliquei que o El Niño é um evento natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, localizado entre o Peru, a Indonésia e a Austrália. No entanto, destaquei como o agravamento das mudanças climáticas, está agravando a intensidade do El Niño, tornando seus impactos cada vez mais severos.

Alertei também para um ponto crítico: por ser um fenômeno de origem natural, o El Niño é frequentemente instrumentalizado por discursos de setores da direita e extrema-direita (bolsonarismo). A estratégia é atribuir os eventos climáticos extremos exclusivamente à natureza, o que naturaliza os desastres e colabora para desresponsabilizar o poder público de suas obrigações com políticas de mitigação, adaptação e gestão de riscos socioambientais.
A ex-ministra Marina Silva complementou a reflexão no discurso dela, lembrando declarações negacionistas do cenário político atual, como as do senador e candidato à presidência do Brasil, Flávio Bolsonaro, que chegou a afirmar que o planeta estaria esfriando em vez de aquecer devido a uma “mudança cíclica”. É justamente para combater esse tipo de desinformação que reforcei, ao final da minha fala, a urgência de investir no fortalecimento da ciência e na educação climática nas escolas.
Victória Regina Lima de Oliveira
Na sequência das intervenções, Vitória, que também é comunicadora científica, trouxe uma contribuição marcante sobre a dimensão socioambiental das crises climáticas no âmbito municipal. Em sua fala, relembrou as fortes chuvas de fevereiro de 2026 em Guarulhos, que deixaram moradores ilhados, veículos submersos e pessoas arrastadas por correntes, para ilustrar as consequências diretas de uma gestão pública omissa e despreocupada com o meio ambiente.

Com base em dados do Instituto Decodifica, Vitória destacou que o Brasil registrou mais de 600 desastres climáticos apenas nos primeiros quatro meses de 2026. Ela enfatizou que a vulnerabilidade ambiental segue um recorte bem definido de classe e raça: as populações moradoras das periferias, de baixa renda e negras são as que sofrem de forma desproporcional com enchentes, ondas de calor e escassez de infraestrutura.
Embora Guarulhos conte com instrumentos normativos como o Plano Emergencial de Altas Temperaturas, Vitoria alertou que a política pública falha ao tratar o município de forma homogênea, ignorando suas profundas assimetrias. Para fundamentar sua análise, citou um estudo do Ipea sobre as 20 maiores cidades brasileiras, no qual Guarulhos é identificada como um “deserto de oportunidades”, caracterizado por graves déficits estruturais de acesso a empregos, serviços e transporte nas periferias.

Diante desse cenário, Victoria propôs como encaminhamento a criação do Observatório Municipal de Vulnerabilidade Climática, fundamentado na ciência cidadã construída dentro das próprias comunidades. A proposta visa mapear, em nível micro territorial e bairro a bairro, as interseções entre riscos ambientais (como ilhas de calor e enchentes) e vulnerabilidades socioeconômicas, garantindo que esse diagnóstico técnico e participativo, e não a pressão política, oriente a distribuição de recursos públicos para drenagem, arborização e mobilidade. Como referência positiva, ela citou as estações de monitoramento de Fortaleza instaladas nas periferias, defendendo que Guarulhos vá além e inclua os moradores como agentes ativos do processo, e não apenas como dados em planilhas.
Laura da Cruz Baia
Laura da Cruz Baia abriu sua intervenção com um apelo pessoal e intergeracional, destacando que, como mãe, avó e bisavó, recusa-se a aceitar um mundo colapsado pela irresponsabilidade coletiva. Em uma crítica contundente à inação social, apontou o abismo entre o discurso e a prática, cobrando um compromisso real com a transformação socioambiental.
Em sua atuação no projeto Pimp My Carroça, Laura trabalha diretamente com a triagem de resíduos sólidos e com a promoção do trabalho de catadores e catadoras. Ela ressaltou o papel essencial da iniciativa em oferecer assistência técnica, como a reforma e manutenção de carroças, garantir visibilidade a esses profissionais e capacitar a população sobre a correta separação e destinação dos materiais recicláveis.

Laura denunciou também a rotina de violência e falta de empatia enfrentada pela categoria nas vias públicas, onde motoristas frequentemente desrespeitam as carroças e colocam a vida dos trabalhadores em risco. Ela lembrou que a sociedade deveria reconhecer e respeitar o serviço ambiental de reciclagem urbana prestado diariamente por esses profissionais, ressaltando que, se houvesse uma gestão de resíduos eficiente na fonte, com a separação correta em todos os lares, a coleta incipiente nas ruas não seria necessária.
Em sua análise crítica, alertou para os graves impactos da incineração do lixo, uma solução simplista que destrói recursos e agrava a degradação ambiental. Do ponto de vista da justiça social, destacou o recorte interseccional da profissão, lembrando que grande parte da categoria é composta por mulheres e homens negros, mães e pais, que garantem o sustento de suas famílias por meio desse trabalho.
Por fim, relacionou a falta de respeito para com os catadores sintoma estrutural de desorganização social. Diante desse cenário, concluiu com um chamado à consciência do voto e à organização popular, defendendo a união em torno de lideranças genuinamente comprometidas com a pauta socioambiental e com a dignidade dos trabalhadores recicladores.
Tainá Salomão
Tainá Salomão, também conhecida artisticamente como Estrela Cadência, trouxe ao debate uma reflexão sobre o papel da internet como espaço de comunicação, formação de opinião e disputa política. Para introduzir sua fala, compartilhou uma memória pessoal: aos 11 anos, viu pela primeira vez o rosto de Marina Silva em uma revista. Na entrevista, a então referência política refletia sobre a biopirataria, tema que, embora Tainá ainda não compreendesse em toda a sua complexidade, despertou uma semente de curiosidade e inteligência ancestral que, anos depois, contribuiria para orientar sua trajetória artística e de pesquisa.
A partir dessa lembrança, Tainá destacou a importância de confiar na potência dos pequenos acontecimentos capazes de transformar perspectivas, despertar consciências e influenciar escolhas, inclusive políticas. Uma leitura, uma música, uma imagem ou uma publicação podem parecer gestos isolados, mas têm o potencial de inaugurar reflexões que reverberam ao longo da vida. Nesse sentido, defendeu que a internet precisa ser reconhecida como um território estratégico de formação de opinião, mobilização social e disputa de narrativas, que deve ser cada vez mais ocupado por artistas, pesquisadores e comunicadores comprometidos com a transformação social.
Em sua fala, Tainá relacionou essa ocupação à valorização das habilidades individuais e à construção de uma arte comprometida com aquilo em que se acredita. Como exemplo, apresentou sua música Sustenta a sua habilidade, cujo refrão propõe que as pessoas reconheçam suas capacidades e ocupem espaços a partir de uma relação de lealdade com a própria expressão artística. Para ela, a arte não mercantilizada pode preservar sua autonomia crítica e, ao mesmo tempo, tornar-se uma fonte de renda. O desafio está em não permitir que a lógica comercial determine integralmente o que se produz, o que se comunica e quais ideias encontram espaço para circular.
A partir dessa perspectiva, convocou as pessoas a transformarem suas habilidades em ferramentas de expressão política. Quem pinta pode retratar, por meio das cores e das imagens, as causas em que acredita. Quem canta ou escreve poesia pode levar suas composições às redes sociais. Cada publicação pode se tornar uma oportunidade de apresentar outras perspectivas de mundo e ampliar o alcance de pautas que frequentemente permanecem à margem dos grandes meios de comunicação.
Tainá também mencionou o artista Bad Bunny e a repercussão internacional de suas músicas como referência para refletir sobre a importância de registrar, compartilhar e dar visibilidade às próprias experiências. Nesse contexto, incentivou o uso cotidiano de plataformas como WhatsApp e Instagram para comunicar aquilo que se deseja transformar na sociedade, entendendo as imagens, os vídeos e as palavras como instrumentos capazes de construir memória, mobilizar pessoas e provocar mudanças.
Ao abordar o alcance das publicações nas redes, ressaltou que o trabalho de artistas e comunicadores em início de trajetória não deve ser desvalorizado pelo número de visualizações. Mesmo uma publicação vista por apenas dez pessoas pode estabelecer conexões significativas e alcançar organicamente quem acompanha aquele trabalho. Por isso, defendeu a importância do apoio mútuo, do compartilhamento de conteúdos e da construção de redes de colaboração entre artistas, pesquisadores e comunicadores que ainda estão conquistando seu espaço.
Por fim, Tainá reforçou que a internet precisa se tornar um território menos hostil para a esquerda e para as vozes comprometidas com a justiça social, a democracia e a sustentabilidade. Em um ambiente atravessado pela desinformação e pela disputa de narrativas, ocupar esse espaço exige presença, organização, criatividade e continuidade. Sua reflexão terminou com um convite à ação coletiva: sustentar as próprias habilidades, compartilhar aquilo em que se acredita e abrir caminhos para que outras vozes também possam ser ouvidas. Afinal, se a internet é um espaço de formação de opinião, deixar de ocupá-la significa abrir mão de participar ativamente da construção das ideias que influenciam a sociedade.
Sobre as discussões
As discussões e relatos apresentados pela sociedade civil ao longo do evento revelam que a crise climática não pode mais ser tratada como um debate abstrato ou puramente técnico; ela é uma realidade concreta que demanda ação política, uma ciência rigorosa e participativa e, acima de tudo, de justiça social.
Dessa forma, compreender o fenômeno El Niño em conjunto com a crítica ao negacionismo científico e climático é fundamental para romper com discursos que naturalizam tragédias e minimizam a responsabilidade do poder público. Assim, reconhecer a influência dos fatores climáticos sem desconsiderar as responsabilidades políticas constitui um passo essencial para combater a omissão municipal, estadual e federal e fortalecer as medidas de mitigação e adaptação.
Contudo, essa análise só se torna completa quando escutamos as vozes que vivenciam as emergências no dia a dia: desde a juventude periférica atingida por enchentes e ondas de calor em Guarulhos, até a luta diária de catadores e catadoras de materiais recicláveis, que garantem a sustentabilidade urbana e a reciclagem nas ruas sob condições de profunda vulnerabilidade e desrespeito.
É nesse cenário que a presença ativa da sociedade civil se consolida como o motor fundamental da transformação. Como demonstrado pelas propostas de criação de um Observatório Municipal de Vulnerabilidade Climática baseado na ciência cidadã e no chamado ao respeito e aos catadores de residuos e são os movimentos sociais, os pesquisadores periféricos e as comunidades populares que possuem o diagnóstico real do território. Além disso, a ocupação estratégica das redes digitais por artistas E comunicadores surgem como um pilar indispensável para disputar narrativas, democratizar a informação e combater a desinformação que serve a interesses econômicos e negacionistas.
A verdadeira potência deste debate reside justamente na centralidade das vozes da sociedade civil. São os comunicadores que traduzem dados em consciência, os catadores que realizam na prática a transição ecológica que o Estado ignora, os jovens que propõem soluções inovadoras via ciência cidadã e os artistas que usam suas canções e redes digitais para despertar mentes e disputar o futuro. Nenhuma política ambiental será justa ou duradoura se for construída de cima para baixo, dentro de gabinetes fechados. A transformação real exige dar espaço, poder de decisão e recursos a quem sente na pele o peso da desigualdade e do calor extremo. Unir nossas habilidades, ocupar a internet e organizar a participação popular são os passos definitivos para transformar a indignação em ação política e garantir que a dignidade humana esteja no centro de toda e qualquer decisão sobre o nosso planeta.
