Memórias territoriais da minha avó como Caiçara na transformação do Guarujá

Casa que a minha avó mora nos últimos 30 anos.

Como citar: Menezes Assef, Matthaeus. “Memórias territoriais da minha avó como Caiçara na transformação do Guarujá” CAMAMAZON. 01/07/2026. Disponível em: https://camamazon.aber.ac.uk/pt/2026/07/01/memorias-territoriais-da-minha-avo-como-caicara-na-transformacao-do-guaruja/ acessado em (xx/xx/xxxx).

Este blog é o primeiro de uma série de três textos que abordam as transformações territoriais em Guarujá, no estado de São Paulo. A escrita deste texto foi inspirada pelas conversas sobre territórios entre os membros da equipe do projeto CAMAMAZON cujas reflexões e análises despertaram questionamentos sobre minhas próprias relações territoriais, dando início ao desenvolvimento e à pesquisa que resultaram neste conteúdo. 

Eu nasci em uma ilha no litoral de São Paulo chamada Guarujá, conhecida como a “Pérola do Atlântico” (que significa “lugar dos sapos” na língua indígena Tupi) por sua beleza. Minha família descende dos povos tradicionais da região, os caiçaras, comunidades pesqueiras que carregam uma herança formada pela mistura de culturas indígenas e europeias. No caso da minha família, essa identidade foi moldada especificamente pelo encontro entre franceses e os povos indígenas da costa brasileira. Além das dinâmicas do próprio Guarujá, nossa família estava espalhada por outras partes do litoral paulista: minha avó tinha tios em São Sebastião e em Ilhabela (ver mapa). 

Mapa do Litoral de São Paulo (Link)

A história da minha avó começou de uma forma incomum. Para chegar a Santos, onde ficava o hospital mais próximo, sua mãe (minha bisavó) precisou viajar por rio e mar, e minha avó nasceu em um barco a caminho do hospital, entre Santos e Guarujá. Minha avó cresceu em Maresias até os dez anos de idade. Lá, meu bisavô tinha uma casa em Barra do Caí e cultivava/plantava cacau para vender. Ela também me contou que ele tinha plantações de mandioca, laranjeiras e outros alimentos, além de tabaco, que cultivavam para vender nas cidades e nas ruas. Para visitar parentes, eles viajavam de canoa ou barco. Quando ele decidiu deixar aquela casa, a tia da minha avó permaneceu no local, dando continuidade ao cultivo/plantio. 

Quando perguntei à minha avó sobre sua relação com a natureza, ela me contou que andava descalça e nadava no rio com lontras, embora tivesse medo delas: “Eu ia para a escola a pé, eu e minhas irmãs, e quando voltávamos da escola de tarde a gente passava folha de eucalipto com uma pasta no corpo para tomar banho e dava um mergulho no rio, e vinham as lontras e ficavam nadando do lado da gente. Eu tinha medo, mas muitas vezes elas nadavam perto da gente ou ficavam na pedra observando a gente tomar banho. Sinto saudades desse rio, em Marisias, ele se encontrava com o mar; era muito bonito. Hoje em dia, esse rio não existe mais.” 

Ela sempre viveu muito próxima da natureza. Foi nesse período que minha avó se mudou para Iporanga, no Guarujá, para morar com seus avós, que viviam de frente para a praia. Eles eram pescadores e havia uma comunidade no local. Diferentemente de Maresias, não possuíam plantações e dependiam totalmente da caça e da pesca. Morando em Iporanga, ela me contou que caminhava 23 quilômetros para estudar no centro de Guarujá. 

O avô por parte de mãe da minha avó era pescador e costumava ir para o alto mar, muitas vezes com o pai dela, retornando horas depois com o que conseguia pescar. Como pegavam bastante peixe e precisavam que o alimento durasse por muito tempo, eles os colocavam em um defumador construído diretamente na terra. A rotina alimentar, no entanto, era ditada pela escassez. Minha avó conta que não gostava de quando seu pai voltava da pesca trazendo tartaruga para comer; ela disse que o pai dela brigava com ela para comer, porque muitas vezes só tinha isso de alimento. Em momentos em que o mar não ajudava, ele precisava ir para a floresta caçar, a família se alimentava de mamíferos e cassava, até lobos-guará para comer. 

Já a mãe da minha avó colhia mandioca, ralava e mexia a massa por muito tempo. Segundo minha avó, de todo esse processo saía um líquido e, com o que restava do resíduo, ela fazia tanto o biju quanto a farinha de mandioca. Para conseguir mantimentos básicos que não podiam produzir, como o feijão, minha avó entrava em uma canoa e remava até a Praia do PC, de onde seguia para comprar comida no centro da cidade. 

A minha avó comentou que amava comer camarão pescado na hora e que aprendeu com a avó dela a pegar camarão-pitu. Elas colocavam restos de comida na água e, quando os camarões se aproximavam para comer, jogavam as redes para capturá-los. Ela me contou que: “tinha um puçá (saco) feito como uma rede e presa em uma madeira. Minha avó jogava no rio com um pedaço de comida, às vezes eram pedaços de peixe, e deixava parado. O camarão do rio se chama pitu; eles eram enormes, como uma lagosta. Quando eles entravam, a gente pegava do rio e colocava em uma cesta de palha. Depois disso, minha avó assava no fogo ou colocava em uma chapa em um fogão a lenha. Depois que assava, ela tirava as cascas e temperava com sal e limão e comia com o que tinha, às vezes com arroz e feijão ou com os peixes que o pai e o meu avô pescavam no mar. Meu pai cozinhava os peixes na folha da bananeira e fazia pirão de banana verde. Minha avó cozinhava a banana com a água do peixe, amassava e colocava farinha e mexia com coentro e ficava muito bom.” 

Ilustração de um pirão (Via: Link)

A obtenção de água da comunidade também vinha diretamente da natureza: eles utilizavam bambus bem largos posicionados na nascente do rio e de cachoeiras para direcionar o fluxo, que caía em um grande caldeirão de ferro ou de pedra (a minha avó não se recorda do material). Dessa água todos bebiam, tomavam banho e lavavam as roupas. 

Minha avó me disse que, além de um grande pescador, caçador e agricultor, o pai dela também era um grande construtor e viajava para ajudar as pessoas a construírem suas casas em vários lugares pelo litoral. Ela sempre me contava que, no Iporanga, meu bisavô ajudou a construir estradas ao lado de seu pai (meu tataravô). Ela se orgulha em falar: “Meu pai e meu avô construíram a estrada do Sítio de São Pedro/Iporanga“.  

Mas o grande avanço do estado de São Paulo transformou profundamente o território e o modo de vida local. A chegada de muitos imigrantes da Europa e da Ásia pelo porto de Santos, e de migrantes vindos de várias regiões do Brasil, gerou um intenso movimento de pessoas em busca de melhorias de vida e novas oportunidades. Muitas delas passaram a ocupar diferentes regiões do estado, inclusive a cidade onde nasci, no litoral. 

Com o crescimento urbano, empresas de construção chegaram à comunidade dos meus tataravós, prometendo desenvolvimento e melhorias. Minha avó relata que, assim como aconteceu com a comunidade dela, outras famílias pesqueiras perderam suas casas. Da mesma forma, ela relata que: “pessoas vestidas de terno e gravata iam até os moradores levando papéis e prometendo uma vida melhor, falando que iriam dar oportunidades. Muita gente que meu pai ajudou perdeu as casas, as terras para grandes empresas”. Os homens de terno apenas colhiam as impressões digitais, pedindo para as pessoas “colocarem o dedo” no documento, enquanto prometiam maravilhas, mas, na realidade, só queriam lucrar com o sonho das pessoas. 

Hoje, o Sítio de São Pedro/Iporanga, que era um local de pescadores, transformou-se em uma área de casas privadas de alto padrão, conhecida como Iporanga, onde muitos milionários e bilionários têm casa de verão; a praia se tornou privada, o acesso para o território é restrito, o entorno é bloqueado por guaritas, muros e seguranças. Um lugar que era livre, hoje, precisa de permissão para entrar. Na imagem retirada do Google Maps, a placa no portão diz: “Identifique-se” (Para mostrar o RG e a placa do carro). 

Fila para mostrar o RG e para anotarem a placa do carro. Foto via: Link

Enquanto isso, o restante da cidade do Guarujá cresceu de forma acelerada e desordenada, atraindo muitas pessoas sem que houvesse infraestrutura adequada. Muitos pescadores e comunidades se deslocaram, e esse deslocamento resultou em sérios problemas de saneamento e urbanização que ainda impactam profundamente a região e a vida da população local. As famílias pescadoras foram empurradas para outras regiões mais afastadas da praia. Com o pouco dinheiro que conseguiram das empreiteiras, o pai da minha avó conseguiu reerguer uma casa na parte periférica do Guarujá, chamada Vicente de Carvalho. O que aconteceu com a família da minha avó, aconteceu com outras famílias. E histórias como essas, ainda são comuns no Brasil.  

Hoje, aos 78 anos, minha avó ainda vive em Guarujá. Ela se mudou para uma área que antigamente era coberta por manguezais. Por causa disso, às vezes a casa treme quando passa um ônibus ou caminhão, e quando tem uma chuva forte, a água cobre as ruas porque o canal construído não consegue suportar o volume durante períodos de chuva intensa. Todo o seu território mudou. Ao longo de sua vida, ela testemunhou o desaparecimento de rios, a substituição de florestas por estradas e casas e a transformação de territórios pesqueiros em propriedades privadas. Suas memórias revelam como as transformações territoriais não são apenas mudanças na paisagem, mas também mudanças na vida, nos meios de subsistência e no futuro das pessoas que pertencem a esses lugares. 

Sua história oferece um vislumbre das profundas transformações que moldaram Guarujá e serve como ponto de partida para compreender os processos mais amplos de mudança territorial que serão explorados nos próximos blogs. 

Este blog faz parte de uma conversa entre os integrantes do projeto CAMAMAZON sobre a nossa relação com os territórios de uma etnografia multiterritorial. Para ver mais conteúdos da série, confira: Territórios