Como citar: Menezes Assef, Matthaeus. “Eu sou um Caiçara?” CAMAMAZON. 20/07/2026. Disponível em: https://camamazon.aber.ac.uk/pt/2026/07/20/eu-sou-um-caicara/ acessado em (xx/xx/xxxx).
E ste é o terceiro e último post de uma série que explorou a formação do Guarujá e das pessoas da cidade. Sinto um profundo sentimento de pertencimento a este território. Sempre quando alguém me pergunta de onde sou, eu respondo: “Sou caiçara”.
Os caiçaras são comunidades tradicionais da costa sul-sudeste do Brasil. Aprendi com minha família algumas tradições, como pescar, dar nós em cordas, identificar peixes, pescar para gente comer, reconhecer o canto dos pássaros pelos assovios, nadar e sentir o mar. Lembro que, quando eu era criança, eu costumava pescar com meu avô. Sei que isso representa menos de 5% do conhecimento caiçara, grande parte perdido com a urbanização acelerada da cidade. Por conta disso, quando eu era pequeno, eu não aprendi muitas coisas. Minha família deixou as comunidades tradicionais em busca de empregos formais e informais: minha avó, por exemplo, pintava unhas e cortava cabelo, mas lembrava de sua infância de maneira diferente. Ela me disse que nadava nos rios, ia ao mar para pescar e cultivava sua própria comida. Pequenas lembranças de um modo de vida que hoje é raro na minha cidade.

O Guarujá tem poucos vestígios históricos visíveis. As construções antigas foram substituídas por grandes prédios voltados ao turismo, que, no verão, recebem mais de dois milhões de pessoas. Onde antes havia casas de pedra feitas com rochas da praia, hoje vemos concreto e poluição de plásticos nas praias e no mar. Essa urbanização acelerada trouxe problemas de infraestrutura ainda presentes: falta de água na alta temporada, enchentes com chuvas fortes e congestionamentos nas ruas devido aos milhares de carros.
A cidade apresenta um cenário marcante de desigualdade social, que se evidencia de forma ainda mais intensa durante episódios de fortes chuvas. Enquanto áreas nobres localizadas à beira-mar, com grandes edifícios e melhor infraestrutura urbana, tendem a sofrer menos impactos devido à presença de sistemas de drenagem mais eficientes, a realidade é bastante diferente nas regiões periféricas. Em comunidades e favelas mais afastadas do centro, a falta de infraestrutura adequada agrava os efeitos das tempestades, resultando em alagamentos, deslizamentos de terra e prejuízos significativos para a população.
Eventos recentes reforçam esse contraste: tempestades já provocaram alagamentos, desabrigados e até situações de risco em encostas, evidenciando a vulnerabilidade dessas áreas (Agência Brasil, 2026; G1, 2026; CNN Brasil, 2026). Em alguns casos, o volume de chuva ultrapassou 200 mm em apenas 24 horas, causando destruição e transtornos generalizados (CNN Brasil, 2026) e em alguns casos deslizamentos de terras em áreas periféricas (G1, 2022). Esse padrão não é recente, sendo observado também em eventos anteriores, o que demonstra um problema estrutural persistente na cidade (G1, 2019).
No mapa abaixo, as áreas em laranja e vermelho correspondem às são áreas de risco de alagamento na cidade.

Para dar um exemplo pessoal, quando eu tinha cerca de cinco ou seis anos, vivi meu primeiro evento climático extremo: uma chuva intensa que alagou ruas e calçadas. Estava com minhas tias, que improvisaram sacos de lixo e sacolas para nos proteger enquanto nos levavam de bicicleta do centro até a casa da minha avó. A casa da minha avó foi construída sobre um manguezal, por isso, mesmo após a chuva, havia acúmulo de água nas ruas. Lembro de ver lixo, garrafas plásticas e outros materiais rodando nos bueiros próximos à casa da minha avó. Infelizmente, problemas assim ainda acontecem; mesmo com reformas no canal e pavimentação da rua, os alagamentos em frente à casa da minha avó continuam, e nada mudou ou melhorou. Essa experiência marcou minha percepção do mundo e despertou meu interesse pelos fenômenos climáticos, fazendo-me refletir sobre como ajudar a transformar minha cidade.
A partir desse acontecimento, nasceu em mim o desejo de estudar mudanças climáticas e política. Aos 18 anos, comecei a trabalhar na construção civil em São Paulo para juntar dinheiro e me mudar para Oxford, na Inglaterra, com o objetivo de aprender inglês e ingressar na universidade. Queria compreender não apenas os acontecimentos da minha infância, mas também como poderia gerar impacto na vida de pessoas que sofrem com eventos climáticos extremos. Foi assim que ingressei no curso de Relações Internacionais e Mudança Climática na Aberystwyth University, em Aberystwyth, Pais de Gales, uma experiência que me abriu portas, inclusive para participar da minha primeira Conferência das Partes (COP).
No início, tentei entender meu papel nas COPs, e aos poucos percebi que representava a juventude, que é um ator superimportante nas negociações climáticas e para o presente e futuro do nosso planeta. Hoje, admito estar um pouco desapontado com os processos da COP e da COP30, mas sigo acreditando na importância da participação de jovens, da sociedade civil e das comunidades tradicionais nas tomadas de decisões.
O caso do Guarujá ilustra como a ausência ou ineficiência de políticas públicas pode intensificar os impactos combinados da urbanização desigual e das mudanças climáticas. Trata-se de um exemplo local de um problema global, no qual populações vulneráveis continuam sendo desproporcionalmente afetadas.
Quando me mudei para o Reino Unido, descobri que a saudade não estava nos prédios, nas ruas ou na rotina da cidade, mas no mar, no cheiro salgado do ar, no som constante das ondas e na maresia. Sempre que volto ao Brasil, é no oceano que me reencontro, passo horas na água, sentindo sua força, sentindo o mar, como se fizesse parte do oceano. É ali que entendo, com mais clareza, a conexão profunda que tenho com a minha casa, o Guarujá. Apesar de ambos termos mudado — e é por isso que ainda sinto que eu sou caiçara.
Este blog faz parte de uma conversa entre os integrantes do projeto CAMAMAZON sobre a nossa relação com os territórios de uma etnografia multiterritorial. Para ver mais conteúdos da série, confira: Territórios

