Foto: Movimento Laudato no território de Santa Marta.
Como citar: Gonçalves, Verônica Korber. “Parte II: O territorio de Santa Marta” CAMAMAZON. Disponível em: https://camamazon.aber.ac.uk/pt/2026/09/01/parte-ll-o-territorio-de-santa-marta/. Acessado em (xx/xx/xxxx).
Esta é a segunda parte de reflexões sobre a minha ida à conferência em Santa Marta sobre transição para além dos combustíveis fósseis. Neste texto, tento permanecer com e no território.
Quando cheguei a Santa Marta, a umidade foi a primeira coisa que me chamou a atenção. É uma cidade litorânea, e o próprio aeroporto é cercado pelo mar e por belas praias. Estar ali trazia uma estranha sensação de familiaridade. A temperatura. Os cheiros. Um território conhecido, como tantas outras cidades latino-americanas.

Santa Marta é uma cidade litorânea, mas as praias da área urbana não são convidativas para banho. A água é linda, morna e cristalina, mas as praias são cheias, barulhentas, cheias de vendedores ambulantes e cães circulando. Para chegar às praias mais paradisíacas, cercadas pela natureza, é preciso pegar um barco até o Parque Tayrona.
O trajeto do aeroporto até o centro levava cerca de quarenta minutos, e para ir até a universidade ou a outros locais da conferência normalmente era necessário usar Uber. Alguns lugares davam para ir a pé; outros, não. Senti-me segura caminhando durante o dia, à noite nem tanto. De novo, tudo parecia familiar.
Uma noite houve uma apresentação de cúmbia na Plaza de los Novios, muito próxima ao meu hotel. A praça era bonita: um coreto no centro, restaurantes ao redor, turistas se misturando aos moradores.
Numa dessas noites, enquanto caminhávamos pela praça, encontrei uma pequena vigília organizada por pessoas ligadas ao movimento Laudato Si’. Havia bandeiras, velas e pequenos cartões com nomes escritos. À medida que nos aproximávamos, era possível ouvir um padre falando ao microfone. A cerimônia homenageava defensores ambientais e ativistas que perderam a vida protegendo seus territórios contra a mineração, o desmatamento e outras formas de exploração. Familiares e militantes liam os nomes de seus entes em voz alta. Suas palavras conectavam memórias, modos de vida, vínculos espirituais e lutas políticas. O padre disse algo como: “Que a luz dessas pessoas nos ajude a lembrar daquilo pelo qual lutaram e fortaleça nossa esperança. Que essa luz brilhe mais intensamente do que a escuridão da injustiça, da desesperança e da impotência.”
Aquele momento ressoou profundamente com aquilo que eu vinha sentindo durante toda a conferência. De um lado, um certo ceticismo em relação a parte das discussões sobre a TAFF. De outro, uma emoção ao ver centenas de pessoas, vindas de diferentes partes do mundo, investindo tempo, energia e esperança em um projeto coletivo.

A maior parte das atividades de que participei ocorreu na Universidade de Magdalena. Estar ali também despertava uma sensação de conforto e familiaridade, da mesma forma que tantas universidades públicas latino-americanas costumam despertar. Um campus bonito, arborizado e agradável para caminhar. Um espaço democrático e plural. Prédios modernos e relativamente bem equipados convivendo com… banheiros precários. Havia muitos estudantes circulando, embora poucos parecessem diretamente envolvidos com a conferência.
Na verdade, continuo refletindo sobre como a cidade parecia pouco presente nas atividades do evento. Ainda tenho dificuldade em entender de que maneira debates sobre transformação sistêmica conseguem realmente dialogar com a vida cotidiana ou ultrapassar os círculos institucionais e militantes para alcançar um público mais amplo. Talvez seja apenas o meu ceticismo falando de novo…
Outro mundo é possível, um mundo de muitos mundos.
Às vezes, eu me perguntava por que estava em Santa Marta. Vim para acompanhar o evento, mas, ao contrário das COPs — onde aprendi com a Hannah que a melhor maneira de não se sentir perdido é seguir uma agenda específica, aqui eu não tinha uma. Eu tinha intuições (conexões entre Santa Marta e as COPs; combustíveis fósseis e desenvolvimento), mas nenhum caminho claro a seguir. Não tinha acesso ao segmento de alto nível nem estava tentando, estrategicamente, incluir termos específicos no texto final negociado.
A comparação com o Fórum Social Mundial (FSM) em Porto Alegre parecia inevitável. Pessoas de movimentos e organizações de todo o mundo reunindo, coexistindo, debatendo e negociando fragmentos de uma declaração final – trazendo os seus diferentes mundos para a mesa.
Eu aprendi muito. Lembrei-me do poder da esperança, de acreditar em alguma coisa. Ouvi dizerem que Santa Marta foi importante para a pedagogia dos movimentos, que a transformação para um horizonte biocêntrico não virá apenas dos governos (temos que pressioná-los, não lutar contra eles), numa perspectiva de democracia radical, e que precisamos de aprendizagem coletiva para disseminá-la. Ouvi pescadores, líderes comunitários e outros: não queremos este falso desenvolvimento; somos nós que vivemos os impactos; queremos soluções. As demandas pelo reconhecimento dos Direitos da Natureza, dos sistemas de conhecimento indígenas, eram constantes. Esta conferência é um processo pedagógico.



A configuração física da TAFF foi semelhante à da Assembleia Popular na COP30 – uma grande tenda na relva de um campus universitário, calor, sol, cantos, esperança, pessoas reunidas em torno de imaginários políticos partilhados.
Houve, assim como no FSM ou na ECO-92, uma forte presença de movimentos autonomistas – o que alguém chamou de uma “internacional da terra”. Um entrelaçamento de territórios: lugares onde a extração está apenas começando, onde está em curso e onde já foi desmantelada. Fomos lembrados de que não há transição sem paz. E isso inclui guerras como as da Palestina ou do Irã, mas também o contexto latino-americano a guerra contra a população negra, a guerra às drogas. Um chamado por territórios de paz. Um chamado pela paz.
Para ir além do reducionismo técnico, o que permanece central são os territórios e os processos políticos pelos quais diferentes mundos interagem. Santa Marta é um processo, não um evento; ouvi isso mais de uma vez. E lembrei ter ouvido o mesmo sobre as COPs. Ambos, de maneiras diferentes, são processos pedagógicos para os movimentos. Mas aqui havia também um cansaço explícito em relação a espaços no estilo COPs, que falham em dar voz aos povos e às comunidades. Santa Marta foi descrita como um espaço para fortalecer essas vozes marcado pela riqueza e clareza das discussões. Essa sensação persistente de que se trata de um processo. Sem resultados imediatos. Apenas a necessidade de continuar insistindo, continuar se organizando, continuar lutando.
Ouvi sobre a importância dos protocolos de consulta como ferramentas para ativar o tecido social o tecido social fraturado pelas indústrias extrativistas. O papel da educação popular e da formação política apareceu muitas vezes. Assim como a importância da radicalidade não como extremismo, mas como uma forma de ampliar imaginários. Um exemplo mencionado foi a ocupação das operações da Cargill pelo povo Munduruku, em Santarém, para interromper a dragagem do rio Tapajós. Foi uma ilustração de como a ação direta pode expandir aquilo que parece politicamente possível.
#Desde os territórios

Evento: Roteiros Financeiros para uma transição Justa e uma Amazônia Livre de Fósseis
As anotações abaixo referem-se a um único evento paralelo que acompanhei — “Roteiros Financeiros para uma Eliminação Justa e uma Amazônia Livre de Combustíveis Fósseis” —, no qual lideranças indígenas do Peru e do Brasil falaram sobre como a expansão do setor de petróleo e gás é vivenciada dentro de seus territórios.
Olivia Bisa, a primeira mulher a presidir o governo autônomo da Nação Chapra, explicou que sete nações indígenas, incluindo os Chapra, compartilham um território no Peru. Mais de 80% deste território está preservado, mas 95% das comunidades não têm energia elétrica e nenhuma tem acesso a água potável.
Onde está o desenvolvimento, perguntou ela, que é prometido quando chegam os projetos de extração?

Uma mulher indígena da APOIANP (filha de cacique e liderança comunitária) falou sobre os impactos no entorno do Bloco 59. Segundo ela, a empresa já começou a se instalar na região. Ela mencionou um relatório divulgado pelo WWF Brasil no final de 2022 sobre a Petrobras e seus planos de utilizar pesquisas conduzidas por uma empresa francesa para iniciar atividades de exploração sem processos de consulta prévia. A Petrobras argumentou que não haveria impactos nesta fase inicial, uma vez que envolveu apenas atividade de pesquisa. Mas, como ela explicou, as comunidades já estavam sofrendo impactos no território desde o início: rápido crescimento populacional, aumento da pressão sobre a liderança local e riscos intensificados numa região já sensível, marcada pela dinâmica de garimpo ilegal e tráfico. “E se não for encontrado petróleo”, perguntou ela, “quem reparará ou compensará os impactos que já estamos sofrendo?” Ela também descreveu mudanças que já são visíveis no dia a dia: pássaros fugindo da região por causa da movimentação constante de aviões em áreas onde antes quase não havia tráfego aéreo. “Os danos já existem antes mesmo de sabermos se existe petróleo”. Ela denunciou os processos de grilagem de terras em andamento, viabilizados pelo governo do Amapá, incluindo esforços coordenados para legalizar as terras ocupadas. Ela também falou sobre ameaças e intimidações dirigidas às lideranças indígenas: “Hoje estamos aqui. Mas voltamos para casa com medo”.
Contrastando com minha experiência na COP/UNFCCC
De muitas maneiras, o TAFF lembrou-me de estar na Assembleia dos Povos durante a COP30. Até a estrutura física parecia semelhante – pelo menos a plenária final: a grande tenda no gramado de um campus universitário, calor, sol, cantos, esperança, pessoas reunidas em torno de imaginários políticos partilhados.
Não poder ir à reunião de alto nível também me lembrou o medo de não ter acesso à “zona azul” na COP embora, neste caso, os espaços institucionais parecessem menos atraentes ou centrais do que os espaços dos povos.
Mas estes eventos paralelos não foram como a Zona Verde, não havia a mesma presença esmagadora de empresas, parcerias, marcas e a atmosfera de dinheiro privado circulando em torno da governança climática.
Na TAFF, tal como na COP, parecia haver uma divisão entre as discussões institucionais e os espaços de movimento. A conferência acadêmica e os segmentos de alto nível centraram-se mais na mudança incremental, na inovação tecnológica, na concepção da governança e nos mecanismos políticos. Já os eventos organizados pelos movimentos enfatizaram a injustiça estrutural, os limites do capitalismo e a necessidade de uma transformação sistêmica mais profunda.
