Barco sobre o Rio Rino
Como citar: Gonçalves, Verônica Korber. ”O território de Bonn” CAMAMAZON. Disponível em: https://camamazon.aber.ac.uk/pt/2026/09/24/o-territorio-de-bonn/. Acessado em (xx/xx/xxxx).
É a segunda vez que vou para as reuniões de junho em Bonn. É muito mais tranquilo do que ir para as COPs, menos coisas acontecendo, menos pessoas, um espaço menor. Ouvi isso de outras pessoas e concordo: é mais fácil ter uma noção das negociações climáticas ali: dos procedimentos, das dinâmicas, etc.
Eu cheguei na quarta-feira para acompanhar o Programa de Trabalho sobre Transição Justa (Just Transition Work Programme). As reuniões aconteciam todos os dias, por cerca de duas horas. Então tive tempo livre para ir a reuniões sobre outros temas (eu escolhi participar de eventos da Presidência, como o do Mapa do Caminho para a Transição para longe dos Combustíveis Fósseis e o diálogo aberto da Presidência da COP30 com as Partes e organizações da sociedade civil). Entre os itens da agenda de negociação, escolhi acompanhar o item 16 da agenda do SBI, Arranjos para Reuniões Intergovernamentais (grupo de contato). É como acompanhar a cozinha da COP, em que se discute o tamanho dos eventos (quantos credenciamentos, quais tipos de credenciais etc.), o orçamento, regras éticas etc. – o que, percebo agora, já é uma questão de participação e representação.
O território de Bonn – é parte do Espaço Schengen!
Não é fácil para a maioria das pessoas participar das reuniões de junho em Bonn. Há a questão das credenciais (eu já escrevi sobre isso), dos recursos para viagem e estadia… E depois, mesmo que você tenha tudo isso, é um território Schengen! Você precisa de visto. O Espaço Schengen molda o território de Bonn, decidindo antecipadamente quem consegue estar na sala.
Assisti a um evento do Press Club Brussels Europe: “No Visa, No Voice: Diplomatic Barriers to Climate Representation“ (Sem visto, sem voz: barreiras diplomáticas da representação climática). Eles trouxeram, mais uma vez, a questão que já haviam levantado antes: o custo da viagem é alto, a maioria das pessoas depende de financiamento internacional, e ainda existe a incerteza do visto: caro, exige comprovação de renda, cartas de recomendação e, ainda assim, às vezes o visto simplesmente não sai. Um pesquisador indiano, com publicações relevantes na área, havia planejado participar justamente daquele evento e não conseguiu entrar. Também mencionaram uma campanha, Bonn Baby Bonn, que busca tornar Bonn mais acessível, para que mais pessoas possam participar.
Concordo muito com o que eles estão dizendo, porque isso revela os limites estruturais da participação. Mas faz sentido querer cada vez mais pessoas? O desenho institucional não comporta isso, e isso apavora aqueles que ocupam esse espaço há muito tempo. Ao mesmo tempo, algo me faz pensar que, sem esses outros mundos presentes na COP, o parágrafo sobre combustíveis fósseis nunca tivesse entrado no Balanço Global (Global Stocktake GST).
Mais sobre o território de Bonn: é um lugar lindo
Bonn me lembra o discurso da sustentabilidade. É uma cidade muito limpa, organizada. Tirei fotos das barcaças. O rio: eles o utilizam para navegação. Barcaças de carvão, de areia. Também barcos de turismo.
Por que não podemos ter isso no Brasil? Temos, mas só em bolhas da elite: ciclovias (como as construídas em Belém para a COP30), calçadas sem buracos, árvores. Bonn também é uma bolha da elite?

Amazônia: no início daquele ano, Auricélia Arapiun, uma importante liderança indígena do Baixo Tapajós, havia participado da ocupação, por um mês, do terminal hidroviário da Cargill em Santarém, em protesto contra um decreto federal que abria três rios amazônicos, incluindo o Tapajós, para a privatização das hidrovias e para dragagens destinadas a facilitar a passagem de grandes embarcações de carga. A ocupação, que reuniu quatorze povos indígenas, terminou quando o governo revogou o decreto.
Algum tempo depois, conversei com alguém que estava realmente indignada com a decisão, como se tivéssemos perdido uma enorme oportunidade de melhorar nossa logística de distribuição: mais navios, menos rodovias. Uma oportunidade para o desenvolvimento. É disso que a Amazônia precisa? Não, aqui estou com os pós-desenvolvimentistas. Mas então, Bonn pode ter isso? Ou eles deveriam mudar tanto quanto nós precisamos mudar? Estariam dispostos? Mudar para o quê?
Então, o que meus olhos veem não é sustentabilidade? Difícil convencer as elites brasileiras disso.
Ainda sobre participação
Uma pergunta constante quando estou em um desses eventos (COPs, Bonn): qual é o sentido disso?
O multilateralismo é importante e limitado. A literatura sobre isso é extensa. O que me intriga são as tensões em torno dos limites da perspectiva centrada nos Estados e as alternativas a ela, que não são necessariamente mais representativas ou mais democráticas. Uma COP maior seria mais plural? Um arranjo diferente como o plurilateralismo produziria resultados mais justos?
E qual é o propósito de eu estar aqui? Uma viagem longa e cara. Deixo minha família. Uso recursos que poderiam ir para outra coisa. Não represento ninguém aqui. Essa questão da representação, da participação, me inquieta muito. Talvez eu precise estabelecer um propósito consciente de devolver, de forma prática, parte do que aprendo aqui — não apenas em sala de aula, na orientação de estudantes, mas de forma mais ampla. Mas sem reforçar a ideia de que todo mundo deveria estar aqui. Ou deveria? Este é um espaço tão desigual.
Qual é o melhor cenário para a participação? O maior número possível de países? O maior número possível de pessoas? O maior número possível de representantes da sociedade civil – e como esses representantes são escolhidos?


Mas, ao mesmo tempo, quero acreditar que mais é melhor do que menos. Não sou estruturalista, nem mesmo uma institucionalista “dura”. Não acredito que as pessoas deixem de importar apenas porque a lógica dos interesses dos Estados, ou da ordem político-econômica internacional, tende a prevalecer. Negociadores também são pessoas: influenciadas, inspiradas, capazes de orgulho, de medo. Não é em vão.
Mas então, quem deveria estar lá, e como essas pessoas são escolhidas? Essa é uma questão de organização política, de poder – e é exatamente por isso que é tão importante que movimentos sociais e organizações da sociedade civil se organizem e disputem quem consegue estar na sala. Talvez um dia as COPs se tornem pequenas demais para tantas vozes, mas aí, acho, seria um bom problema porque significaria que mais pessoas estariam investindo sua energia em tentar mudar a forma como os acordos climáticos são construídos nas COPs.
Obs. Ninguém do Kuntari Katu estava em Bonn, ou pelo menos eu não cruzei com ninguém. O Kuntari Katu foi um programa criado pelo Ministério dos Povos Indígenas e pelo Ministério das Relações Exteriores para fortalecer a capacidade técnica e política de lideranças indígenas de incidir nas negociações climáticas internacionais, com a COP30 no horizonte. O programa reuniu 30 lideranças indígenas de todos os biomas do Brasil. Algumas delas já estavam em Bonn no ano passado, e acompanhei de perto o grupo que seguia o Programa de Trabalho sobre Transição Justa (escrevi, junto com a Tchella Maso e a Alessandra Prates, sobre isso aqui). A maioria foi depois para a COP30, onde estavam por toda parte: nos eventos, nos corredores, conversando com negociadores. Fizeram parte do que a Presidência da COP30 celebrou como uma presença indígena sem precedentes, com cerca de 900 pessoas credenciadas na Zona Azul (360 do Brasil), a maior em três décadas de COPs.
E, no entanto, seis meses depois, na SB64, não consegui encontrar nenhuma delas. Isso me entristeceu. Tanta gente fazia referência à COP30 e ao esforço investido na participação ali. Qual é o legado disso? Ou que legado vamos (vou) ajudar a fazer disso?
