Mayane Bento Silva
Como citar: Bento Silva, Mayane. “Do OCA ao Camamazon: Trajetória de uma jovem pesquisadora amazônida” CAMAMAZON. Disponível em: https://camamazon.aber.ac.uk/2026/11/02/from-oca-to-camamazon-the-trajectory-of-an-early-career-amazonian-researcher/. Acessado em (xx/xx/xxxx).
Minha intenção, neste breve ensaio, é descrever um pouco sobre minha trajetória de pesquisa na Amazônia e refletir sobre minha participação no projeto Centralizando a Negociação de Acordos Climáticos Dentro e a Partir da Floresta Amazônica (CAMAMAZON). Para não incorrer no risco da prolixidade, tentei organizar o andar trôpego do meu pensamento de forma cronológica, pois acredito que, para falar de mim e apresentar o que pesquiso, preciso partir do meu território.
Sou uma professora internacionalista que nasceu, cresceu e vive na Amazônia brasileira desde 1988, ano em que nasci, no município de Tailândia, cidade cuja economia emergiu da exploração de madeira às margens da PA-160, no estado do Pará. Minha mãe, Antonieta, é baiana, e meu pai, Francisco, é potiguar, do Rio Grande do Norte; ambos chegaram à cidade por volta dos anos 1980, ela ainda jovem, e ele como caminhoneiro. Sou a terceira de um total de dez filhos, e toda a minha formação básica ocorreu no Centro Educacional Líder de Tailândia (Celta), na fronteira do Nordeste paraense.
Mudei para a cidade de Belém há 20 anos com a finalidade de estudar Relações Internacionais, e iniciei a graduação na Universidade da Amazônia (UNAMA) em 2006, aos 17 anos. A turma na qual me formei, em 2009, foi a primeira do estado. Talvez por isso, nossa formação tenha se pautado significativamente na perspectiva econômica, ainda que houvesse um esforço para integrar o estudo das Relações Internacionais à compreensão dos desafios amazônicos. Infelizmente, naquela época, nenhuma instituição pública oferecia essa graduação na região (PA).

Ao longo da graduação, fui bolsista de monitoria em política externa brasileira e política internacional comparada. No último ano, sob a orientação do professor Dr. Mario Miguel Amin Herreros, desenvolvi minha pesquisa de conclusão de curso, propondo um diálogo entre a Psicologia (Behaviorismo de B. F. Skinner) e a Economia Política Internacional (teorias críticas neomarxistas), a fim de compreender os mecanismos de condicionamento do comportamento dos Estados — especificamente os latino-americanos — a partir dos interesses dos Estados Unidos, compreendidos como potência hegemônica na década de 1990. Neste trabalho, defendo que a privação, seja de recursos, de financiamento, de liberdade ou de desenvolvimento, é uma estratégia de controle historicamente utilizada pelos Estados Unidos em sua relação com a América Latina.
Em 2010, ingressei no Programa de Pós-Graduação em Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia, no Núcleo de Meio Ambiente da UFPA. Nesse mestrado interdisciplinar, entrei em contato com pesquisas diversas sobre a Amazônia, já que a turma era composta por arquitetos, engenheiros, pedagogos e graduados em Direito, interligados pelo desafio de pensar o desenvolvimento local da Amazônia. Sob a orientação do professor Dr. Norbert Fenzl, defendi a dissertação intitulada Macroprojetos Regionais e suas Consequências para o Desenvolvimento Local: a IIRSA e sua Influência no Caso da Hidrelétrica de Belo Monte no Pará. Em suma, o trabalho resultou em uma descrição das conexões entre a Iniciativa de Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), os interesses do Estado logístico brasileiro e a construção da Hidrelétrica de Belo Monte, demonstrando que os custos socioambientais dessa estratégia de desenvolvimento, baseada em alimentar o mercado mundial com recursos naturais da Amazônia, suplantava qualquer projeção de crescimento e retorno econômico prometido à região amazônica da época. Nessa etapa da minha vida acadêmica, ficava cada vez mais claro que era imperativo pensar além do desenvolvimento capitalista eurocentrado.
Em 2013, mediante processo seletivo docente, retornei à Universidade da Amazônia na condição de professora da disciplina de Política Internacional Comparada, no Bacharelado em Relações Internacionais. Ao longo dos 8 anos em que permaneci na instituição, ministrei disciplinas no campo da economia política, da segurança e da geopolítica da Amazônia. Noto que o clima e o tema das mudanças climáticas, como interesse de pesquisa, se apresentavam como algo mais abstrato e transversal, um dos motivos do combate à pobreza, à desigualdade e à degradação ambiental que marcam a história das Relações Internacionais na Amazônia. De toda forma, as trocas com discentes e demais professores, ao longo dessa experiência docente na UNAMA, foram fundamentais para o aprofundamento do meu conhecimento na ciência das Relações Internacionais e nas complexidades da Amazônia.
Ainda em 2015, ingressei no programa de doutorado em Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UNB), em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA) — doutorado interinstitucional (Dinter). As disciplinas do doutorado foram ministradas em Belém, com o apoio de professores do Instituto de Relações Internacionais da UNB, tais como: Dr. Alcides Vaz, Dra. Ana Flávia Barros-Platiau, Dra. Cristina Inoue, Dr. Roberto Menezes, Dr. Thiago Ghere e Dr. Daniel Jatobá, aos quais serei eternamente grata pelo empenho em nossa formação. Em 2017, morei em Brasília por 6 meses, em função do estágio doutoral (em metodologia e teoria das RI) e da qualificação do projeto de tese. Sob a orientação do professor Dr. Daniel Jatobá e coorientação do professor Dr. Roberto Goulart Menezes, defendi, em maio de 2019, a tese intitulada Colonialismo e Colonialidade no Brasil e na Amazônia Paraense.
Ao olhar essa trajetória, compreendo que, desde a graduação, minhas pesquisas caminharam do nível macro ao micro, passando pela análise da América Latina, em seguida pela Amazônia, até aprofundar minhas reflexões sobre o estado do Pará. Desde o final da tese, tenho me empenhado em traçar um caminho inverso e contribuir com uma perspectiva amazônida para as Relações Internacionais.
Nesse mote, o clima passou a centralizar minha agenda de pesquisa em 2024. A confirmação de Belém como cidade-sede da COP30 apresentou-se como uma oportunidade de vivenciar de perto o processo de construção de acordos no campo das RI, o que mobilizou professores e discentes da área na Amazônia, incluindo eu, que havia estudado a governança ambiental apenas em livros e congressos por anos. Nesse mesmo ano, ingressei como professora efetiva na Universidade do Estado do Pará (UEPA) e, com o apoio do professor Miguel Dehnin, trabalhei para aproximar o curso de RI da UEPA do curso da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP).
Se bem recordo, foi em janeiro de 2024 que nos reunimos em uma cafeteria para dialogar sobre o desenvolvimento de um projeto conjunto. Nessa ocasião, a professora Brenda de Castro (RI/UEPA) destacou que, em seu memorial acadêmico, havia a proposta de um observatório que nos permitisse acompanhar e nos informar sobre a COP30. A ideia agradou a todos, e ficou decidido que construiríamos uma ação de extensão que nos permitisse integrar discentes da UEPA, UNAMA e UNIFAP, junto à sociedade civil local, em torno da produção e comunicação de conhecimento sobre a Amazônia e a agenda do clima. A ideia prosperou e materializou-se em um projeto que conectou estudantes de várias instituições de ensino regionais a movimentos sociais e a pesquisadores nacionais e internacionais.
Posso dizer que o Observatório da COP na Amazônia (OCA) é fruto do encontro entusiasmado entre professores recém-concursados. Não tínhamos experiência em nenhuma COP, não tínhamos experiência em institucionalização de projetos de extensão, e não tínhamos dinheiro. Tínhamos apenas ciência da oportunidade e da necessidade de executar a tarefa — junto aos alunos — de compreender e disseminar informações sobre as mudanças climáticas, a governança ambiental global e, mais especificamente, sobre a Amazônia na COP30.

Para tanto, desde 2024 o OCA foi organizado em quatro eixos de ação: (i) a divulgação de informações sobre a Amazônia, o clima e o meio ambiente via redes sociais (MIDOCA); (ii) as oficinas e reuniões do Grupo de Pesquisa em Governança Ambiental, Políticas Públicas e Conjuntura Amazônica (GRUPOCA); (iii) os Simpósios de Governança Ambiental Global e Políticas Públicas na Amazônia Legal (SIMPOCA); e (iv) a publicação quadrimestral do Boletim Informativo do OCA (INFOCA), com resultados de pesquisas locais sobre governança ambiental e climática.
No contexto da COP30, em 2025, os discentes membros do OCA atuaram em diversas frentes: alguns participaram como voluntários da UNFCCC, como membros de delegações de Organizações da Sociedade Civil (OSCs), mobilizando protestos e coordenando eventos paralelos, entre outras atividades, outros demonstraram pouco interesse no evento ou em seus impactos para a cidade, para a pesquisa e para o campo de estudo. Como resultado, essas mobilizações — ou a falta delas — apresentam-se como uma rica experiência, que tem me instigado a compreender o papel da juventude amazônica, com ela e a partir dela, na governança do clima.

A oportunidade de colocar esta pesquisa em prática surgiu em 2025, quando as professoras Verônica Korber Gonçalves e Cristina Inoue me aceitaram como bolsista de pós-doutorado no Instituto de Relações Internacionais (IREL/UNB), me integrando ao projeto CAMAMAZON e, com ele, à missão de investigar como a Amazônia constitui um ponto de partida relacional para repensar a governança climática global e a própria disciplina de Relações Internacionais. É no interior dessa missão que se inscreve o meu projeto Juventude, Extensão e Clima, cujo objetivo é compreender, a partir da experiência e memória dos estudantes de Relações Internacionais do OCA, os significados de estudar a disciplina na Amazônia e de vivenciar uma COP no coração da floresta. Tenho me empenhado em compreender como essa vivência constitui, ou pode vir a constituir, para os jovens voluntários do observatório, modos particulares de incidência política na governança do clima, capazes de centralizar o papel da Amazônia e de ressignificar as Relações Internacionais como disciplina praticada na e a partir da região.
Na prática, situar esta pesquisa na Amazônia significa tratá-la não como caso empírico, mas como lugar de enunciação. Se deslocarmos para a juventude amazônica a opacidade epistêmica que Viveiros de Castro denuncia no prefácio a A Queda do Céu (Viveiros de Castro, 2015), ousaria dizer que também não sabemos o que os jovens sabem. Assim como as cosmologias indígenas foram historicizadas como saber antigo, do passado, catapultamos os jovens para a condição de agentes do futuro, e, em ambos os casos, a presença plena no agora lhes é negada.
Contra essa dupla subtração temporal, tomo de Viveiros de Castro a importância de reconhecer a contemporaneidade dos mundos e suas múltiplas territorialidades. Partindo disso, eu vejo a COP30 na Amazônia como um amálgama de mundos, de racionalidades diversas e em disputa. A COP30 assume importância para minha pesquisa justamente por permitir compreender os deslocamentos dos jovens estudantes de RI da Amazônia entre a sala de aula, o território e as negociações climáticas globais, e, na medida do possível, entender como esse transitar-a-partir-da-Amazônia os constitui como agentes de produção e disputa de sentidos no mundo e entre mundos.
Nesse processo, em 2025, eu acreditava que contribuir para o livro do CAMAMAZON seria o objetivo do meu projeto. E é, mas o que de fato tem me impactado nesse processo de interação é a forma de fazê-lo. Da graduação ao doutorado, o processo de fazer pesquisa foi sempre muito solitário. Agora, estar inserida em uma pesquisa amparada por uma rede de pesquisadoras mulheres e pelo Matthaeus, como nosso assistente de pesquisa, tem transformado essa experiência de forma positiva: não me sinto mais sozinha nessa jornada.
Isso, somado à possibilidade de desenvolver essa pesquisa com os estudantes do OCA, tem representado muito em termos de imaginar e praticar outra forma de fazer ciência: juntos e através de nós. Ocorre que, longe de ser romântica, essas transformações nas relações de produção do conhecimento também podem ser perturbadoras. Por exemplo, o sentipensar, que norteia a pesquisa, me assusta um pouco. Ver-me na escrita, analisar interações com os discentes, revisitar memórias e toda a emoção que isso carrega tem sido transformador e assustador, pois, para mim, soa como a vida me dizendo: chega de apenas criticar a subalternização, vamos fazer algo a respeito. Para não me afundar na ansiedade climática e acadêmica, gosto de acreditar que esse algo pode começar colaborando para que os saberes dos jovens do OCA possam falar, e serem ouvidos, sobre a disciplina de Relações Internacionais e sobre a governança climática global a partir da Amazônia.
Pensando no futuro próximo da COP31, como afirmei anteriormente, nenhum dos professores que coordenam o OCA havia participado de uma COP, e a minha primeira vez foi a própria COP30. Só consegui transitar pela Zona Azul graças ao empenho da professora Hannah Hughes, e confesso que a experiência me desorientou mais do que me esclareceu. Diante do volume simultâneo de reuniões, negociações e eventos paralelos, duas perguntas não me deixavam em paz: o que devo fazer aqui? E como assimilar tudo o que observo? A elas se somava o cansaço, físico e analítico, de quem tentava apreender um fenômeno complexo vendo-o pela primeira vez, ao mesmo tempo em que coordenava um projeto cujo objetivo era e é facilitar essa compreensão e esse envolvimento.
Não sei quantas COPs é necessário acompanhar para compreender as COPs e nosso papel nesse espaço. Isso deve ser subjetivo, principalmente se considerarmos uma série de fatores logísticos, econômicos e ambientais que decorrem da necessidade de mobilidade para estar presencialmente em uma COP, ou as facilidades de acompanhamento das muitas atividades de forma on-line. De toda forma, no contexto da minha investigação, acompanhar a COP31 será importante para aprofundar minha observação e meu conhecimento sobre a atuação da juventude na governança do clima, bem como para analisar a continuidade ou a descontinuidade das ações dos jovens do OCA, mediante, por exemplo, a presença e a observação na conferência, o envolvimento na produção do boletim informativo e as discussões no grupo de pesquisa. Até lá, sigam o Observatório (observatoriodacop.com.br) e contribuam com nossas atividades.
Referência
KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. Prefácio O recado da mata de Eduardo Viveiros de Castro, p. 11–41. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
