Tentando dar sentido à sensação de não pertencimento buscando vida em Santo André 

Foto via Prefeitura de Santo André

Esta é a minha tentativa de reagir à pergunta da Cristina sobre “retornar à floresta” e ao lindo texto da Hanna sobre compreender a desterritorialização por meio do aprendizado de reflorestar nossas mentes. Ao ler a reflexão de Hannah sobre a infância, eu lembrei da minha. 

Eu cresci em São Paulo — não na capital em si, mas em uma cidade que há muito foi engolida por ela chamada: Santo André. O que os urbanistas chamam de conurbação — a fusão de cidades em uma massa urbana contínua — moldou a paisagem da minha infância. É uma região profundamente urbanizada: pouquíssimas árvores, muito pouco espaço verde, concreto sem fim, prédios altos, asfalto, barulho, poluição. 

Assim que pude, eu fui embora (embora eu volte com frequência para visitar os que ficaram). E não tenho um profundo senso de pertencimento a esse território. Carrego memórias de pessoas e lugares. Eu lembro vividamente de me sentir triste quando criança, achando feio viver em uma cidade que parecia, pra mim, cinza e poluída — tão diferente das paisagens lindas e verdes que eu via nos desenhos animados. Não era possível nadar no Rio Tamanduateí. 

Mais tarde, eu entendi que minha comparação vinha dos lugares onde eu passava feriados e férias — espaços onde o verde e a água ainda estavam presentes. Quando tento acessar ou entender o que “território” significa para mim, vou para a Serra do Mar e para o mar. Acho que o senso mais profundo de conexão emerge quando estou na Mata Atlântica, diante do Oceano Atlântico. Mas o que sinto ali não é exatamente pertencimento. É encantamento. Gratidão. Uma conexão entre terra–pessoas–cheiros–tempo–oceano (seria isso seria uma forma de “trapaça”, considerando que não sou de lá, não vivo lá e não consigo, sei lá, antecipar uma mudança no clima pelo modo como o vento atravessa as árvores?) 

Às vezes, quando volto a Santo André, tento pensar no que Anna Tsing chamou de “cogumelos nas ruínas” — formas de vida que persistem apesar do capitalismo (Tsing, 2015). Procuro os fragmentos da Mata Atlântica que sobrevivem ao longo das margens poluídas dos rios. O pequeno quintal que ainda não se tornou mais uma torre de condomínio. As ervas daninhas rompendo o cimento. Muitas vezes é um exercício melancólico, quase de resignação. E, ainda assim, minha experiência de desconexão não é universal nesse espaço. Sei que há pessoas ali que coexistem com a natureza — muitas vezes por necessidade material, como prática cotidiana moldada pela desigualdade. Pessoas que sobrevivem na precariedade. Pessoas que constroem relações com a terra “nas ruínas do capitalismo” (de novo a Tsing). 

Minha incapacidade de me sentir enraizada não significa que outras ontologias não estejam vivas no mesmo território. O que me resta é reconhecer isso. Reconhecer que múltiplas ontologias coexistem. Mundos que posso respeitar e valorizar, mas nos quais não posso entrar plenamente. Talvez reflorestar seja aprender a perceber a floresta que persiste — em fragmentos, em ruínas, nas margens? Testemunhar também é uma forma de cuidado? 

Referência 

Tsing, Anna Lowenhaupt. 2015. O cogumelo no fim do mundo: sobre a possibilidade de vida nas ruínas do capitalismo. Princeton: University Press.