Navegando entre territorios

Foto tirada por Erzebet em 2017

Lembro-me dos verões quentes que passei na infância, brincando nos campos perto da casa da minha avó. Com as outras crianças da rua, vagávamos pelos jardins que conhecíamos, mas também nos aventurávamos além, pelas estradas de terra e pelas “ilhas” de árvores espalhadas por terrenos abandonados . Nossos parquinhos surgiam onde quer que parássemos, nas bordas indomadas de uma pequena cidade no interior da Hungria. Construir coisas com gravetos e barro sempre que chovia era nossa principal atividade. Recriávamos objetos e espaços que conhecíamos das nossas casas no meio de um campo de trigo, nos arbustos, nos galhos de cerejeiras. Transitar entre mundos — a densidade da vegetação exuberante e indomada e a previsibilidade do ambiente construído — acontecia com tanta facilidade que nunca parávamos para pensar nisso. Esse modo de existir simplesmente era.

Somente muitas décadas depois essa experiência ganha um significado especial, enquanto acompanho minhas colegas por suas jornadas etnográficas de e para a COP, mesmo se à distância.

Ao ouvir suas experiências navegando por diversas infraestruturas de desconexão nesse megaevento, percebi-me cada vez mais sintonizada àqueles momentos vividos, genuínos, de solidariedade e convivência, e a percepções que vão além do que é familiar. Esses revelaram um registro sutil, porém profundamente sentido e vivo, de habitar esses enquadramentos materiais e epistemológicos. Notei que a distância entre meu ponto de observação e as jornadas de minhas colegas é, de fato, apenas física. Em minha mente — ainda que eu talvez não conseguisse imaginar os detalhes específicos ligados a lugares e pessoas — a construção de relações com a COP como um “território” parecia muito ressonante e familiar.

Como Hannah observa em outra postagem do blog, nossa diversidade de localizações espaciais enquanto membros da equipe do projeto também carrega um importante significado epistemológico:

“Pelo menos de fora, parece que nenhuma de nós incorpora um único território como lar. Cada uma de nós se moveu e foi movida de lugar em lugar e, nesse sentido, pode-se dizer que todas incorporamos relações multiterritoriais e somos moldadas, em diferentes formas e graus, por um mundo dominante.”

Sua observação de que “há uma relação compartilhada de atravessar territórios” ecoa fortemente em minha mente. Todas carregamos marcas de territórios dentro de nós — uma conexão com o solo, as plantas e ecossistemas inteiros — mesmo que, como Veronica observa em sua postagem (blog), possamos não nos sentir particularmente enraizadas nos lugares onde crescemos (lugares de origem?).

Mover-se por meio de territórios exige uma negociação constante tanto da conexão quanto da desconexão. Em meus próprios esforços para cultivar formas de ser e de estar junto que não mantenham separações rígidas — na sala de aula, na minha escrita e pesquisa e na maneira como experiencio o cotidiano, dentro de mim e com os outros — volto sempre à questão de como sustentar níveis de experiência distintos, talvez até conflitantes, e encontrar formas de torná-los acessíveis uns aos outros. A multiterritorialidade, para mim, traduz-se nas relações que carrego de e para os mundos em que vivi e que moldaram minha história pessoal. Eu a imagino como uma constelação fluida de paisagens afetivas em movimento (Strausz 2026).

Minha trajetória educacional me afastou dos campos, levando-me à cidade e a paisagens predominantemente urbanas. Nesse processo, também me distanciei da experiência do que Maria Lugones descreve como “viajar entre mundos” — a facilidade de transitar entre múltiplos mundos com criatividade e ludicidade (1987: 16). Quanto mais imersa (submergida) no mundo das ciências sociais ocidentais e da pesquisa acadêmica, menos conseguia me conectar com outras formas de conhecer e de estar no mundo.

Lugones contrapõe a “percepção amorosa” — um olhar empático, aberto a outros mundos e à alteridade dentro de nós — à arrogância do “viajante agonístico” ocidental (1987: 5, 15), que joga apenas para vencer e conquistar. O jogador competitivo se preocupa com competência e autoimportância, busca fixar significados e identidades enquanto se frustra com a ambiguidade. Já o viajante entre mundos improvisa em sua “abertura para ser um tolo” e encontra prazer no que pode existir além das normas estabelecidas. Sua atitude lúdica “transforma a atividade em brincadeira” (1987: 15).

Anos investidos para me tornar fluente na linguagem de um mundo acadêmico hegemônico e competitivo — como tentativa de recuperar a facilidade de movimento — resultaram apenas em uma mobilidade limitada. Mesmo quando, com a prática, os conceitos

se abriram e o discurso começou a se moldar às minhas intenções, tornando-se menos misterioso. Aprender a jogar o jogo de maneira mais habilidosa não parecia uma brincadeira de verdade. Circular livremente por terrenos diversos transformou-se em algo que parecia mais como andar em pequenos círculos. Os mundos já não se conectavam, mesmo com palavras mais cuidadosamente escolhidas e melhor domínio da gramática. Sentia uma divisão — a performance da seriedade da expertise e tudo ao seu redor que não reivindicava esse lugar elevado, mas que ainda assim era vital para sustentar a vida. Conversas, caminhadas, refeições, árvores, céus azuis, gestos de cuidado, momentos espontâneos de alegria e gentileza.

Recuperar o movimento através dos territórios que carrego dentro de mim — e, com isso, o acesso a outras formas de conhecer e existir — exigiu um tipo de esforço contínuo, não treinado. Ecoando as perguntas potentes de Veronica: “Talvez reflorestar a mente seja aprender a perceber a floresta que persiste — em fragmentos, em ruínas, nas margens? Testemunhar também é uma forma de cuidado?” Para mim, isso primeiro exigiu notar e permanecer com a desconexão — sustentar a ruptura. A partir daí, comecei a aprender a me sintonizar lentamente com outras possibilidades, mais vitais, de construção de sentido. Esse aprendizado — que também exige desaprender uma mentalidade extrativista, seja de informação, de insight ou do que possa parecer matéria-prima para interpretação — ainda está em andamento. Estou trabalhando para reconfigurar monumentos feitos de abstrações e sensibilidades desconectadas em arranjos móveis — mais próximos daqueles feitos de gravetos e barro.

Referências

Lugones, M. Playfulness, “World”-Travelling, and Loving Perception. Hypatia. 1987; 2(2): 3–19.

Strausz, E. Curating Learning Journeys: Transformational Experiences in the IR Classroom and Beyond. Palgrave Macmillan. 2026. (Acesso aberto – link para PDF)