Os territórios de uma COP na cidade amazônica de Belém

Uma das conversas que nós do projeto CAMAMAZON tivemos é que: podemos pensar na COP como território? E o que acontece quando pensamos esses megaeventos como múltiplos territórios, como isso transforma a forma como observamos, compreendemos e analisamos a política das negociações climáticas?

Essa ideia foi inspirada pelas pesquisas da integrante do projeto Marcela Vecchione-Gonçalves com Povos Indígenas. Seu trabalho reflete a mobilidade política das políticas indígenas, tal como encenadas por meio da diplomacia climática indígena (Vecchione-Gonçalves 2009; 2014; Beier 2009). Na luta para defender e proteger o território e os modos de vida territoriais, a diplomacia indígena é mobilizada e levada até onde as ameaças se originam e onde a defesa pode ser feita. Como a Marcela descreve, “esta é uma maneira de fazer lugar, como território político e social, por meio de lugares, no sentido de construir conexões afetivas relacionadas à cosmologia do próprio grupo” (Vecchione-Gonçalves com Hughes 2023, p. 75).

Com o coletivo de pesquisadoras, isso nos sintonizou com a territorialização da prática diplomática e também com a potencial sobreposição de um território sobre outro por meio do próprio evento da COP e de seus produtos negociados. Isso significa que, ao mesmo tempo em que uma abordagem territorial sensibiliza a pesquisadora para o caráter específico ao lugarl, e ainda assim móvel da diplomacia indígena, que carrega relações territoriais para o espaço internacional da COP, a fim de lutar pela continuidade do território, ela também nos alerta para o fato de que é a prática diplomática territorializada dominante e os produtos da COP que perpetuam, em primeiro lugar, o apagamento das diversas relações entre terra e povos.

Para nos prepararmos para nossa experiência etnográfica na COP30 e facilitar o desenvolvimento de uma sintonia compartilhada entre nosso pensamento e nossa prática de pesquisa com essa abordagem territorial, realizamos uma série de encontros de “leitura”. Um dos capítulos com os quais dialogamos foi o de Kimberly Marion Suiseeya e Laura Zanotti (2023), que apresenta um relato etnográfico desenvolvido a partir de uma etnografia colaborativa de evento realizada no mesmo local, em Belém. Como destacam Marion Suiseeya e Zanotti, a pesquisa tende a “priorizar expressões verbais (na forma de falas/discursos)” em vez de se sintonizar com as paisagens multissensoriais e “semióticas dos megaeventos” (2023, p. 199). Isso nos desafiou a olhar além da agenda de negociações para a paisagem temporariamente construída da COP, situada em um território da Amazônia e atravessada por milhares de participantes territorializados e desterritorializados do mundo inteiro. Erzsébet Strausz, que se tornou facilitadora da prática de escrita reflexiva do projeto, nos incentivou a encontrar espaços, enquanto pesquisávamos a COP, para sentar e registrar as texturas dos espaços que atravessávamos (Strausz 2026). Este blog é uma primeira tentativa de registrar algumas das conversas e reflexões entre Hannah, Cristina e Verônica, estimuladas por essa abordagem coletiva de estudo.

Hannah: Este território é diferente?

Uma das coisas que mais me impressionou ao caminhar pelo local do evento foi o quanto aquilo se parecia com outras sedes de COP. Assim que entrei, o espaço e sua organização me eram familiares de experiências anteriores: filas e passagem pela segurança, retirada do crachá, escaneamento para entrar na conferência. O mesmo carpete, corredores, câmeras de vigilância e bebedouros. Comentei isso com a Verônica, mas ela respondeu que tudo o que via era o Brasil.

Depois da nossa conversa, olhei novamente. Era verdade que havia mais “improvisos” visíveis do que o habitual. Perguntava-nos se os banheiros temporários iriam estar lá pelas duas semanas. No segundo dia, muitas portas já estavam sem maçanetas e era difícil encontrar uma que fechasse e trancasse. Como o Dia Mundial do Banheiro acontecia durante a COP, havia adesivos colados nas portas em relação aos banheiros. Enquanto eu me esticava para manter a porta fechada, eles me lembravam quantos milhões de crianças no mundo vivem sem acesso a um banheiro seguro no nosso planeta.

Depois de alguns dias, os banheiros foram “incorporados à política da decisão do Brasil” de sediar a COP30 na cidade amazônica de Belém. As preocupações dos governos com a cidade-sede e com os custos e padrões de acomodação haviam sido levantadas na reunião intersessional em Bonn, em junho de 2025. Durante o verão, cresceu a pressão para transferir o evento para uma cidade brasileira maior, com o Secretariado da UNFCCC sugerindo que a cúpula de líderes pudesse ser realizada em outro local para aliviar a pressão sobre a hospedagem. A presidência manteve-se firme de que o evento seria em Belém.

Na terça-feira, no dia 11 de novembro, no segundo dia da COP, a segurança do local foi rompida por protestos indígenas sobre acesso. Em uma carta oficial, o Secretário Executivo da UNFCCC, Simon Stiell, descreveu as responsabilidades de segurança do país anfitrião e também mencionou os banheiros na COP. A carta indicava que havia “múltiplas reclamações sobre as condições das instalações sanitárias, incluindo portas e acessórios quebrados”, afirmando que o fechamento de banheiros causou “considerável desconforto e preocupação reputacional para delegações e participantes”. O calor dentro do local também foi apontado como problema, solicitando garantias de que as temperaturas seriam “reduzidas nas próximas 24 horas”.

Em meio à política sobre o local da COP, perde-se de vista o verdadeiro objetivo dessas reuniões e, que para mim, pelo menos, o próprio propósito de se chegar a um acordo em todas as suas formas: tornar os mundos compartilhados habitáveis para todos ​​– talvez até prósperos. Se ao menos um acordo pudesse ter sido alcançado em 24 horas, isso reduziria as temperaturas globais que provocam eventos climáticos extremos, os quais estão levando os mais pobres e vulneráveis ​​de todas as sociedades à beira da sobrevivência. Essa disputa sobre as condições dentro e fora do local também lança luz sobre a COP como um território e a transposição de um conjunto de valores territoriais para outro; como se houvesse apenas um padrão de condições aceitáveis ​​para alguns, que ofusca a necessidade de se alcançar condições de vida dignas para todos.

A disputa sobre as condições dentro e fora do local também refletiu a COP como território e a sobreposição de um conjunto de valores territoriais sobre outro — como se houvesse apenas um padrão aceitável de condições para alguns, que obscurece a necessidade de garantir condições de vida dignas para todos.

Belém, como cidade-sede, aproximou a COP da vida real e da realidade vivida do aquecimento global, apesar de todos os esforços para manter as negociações isoladas na zona azul e impedir que a vida na periferia — seu calor extremo, saneamento precário, silenciamento — invadisse os procedimentos formais. A chuva caía forte e infiltrava-se no local; as sessões eram interrompidas e depois retomadas. Verônica estava certa: era difícil manter o território exatamente como deveria ser quando sediado na Amazônia brasileira.

Cristina: As muitas COPs e territórios na cidade de Belém

Para mim, a COP30 aconteceu de formas diferentes em diferentes espaços de Belém. Circulei pela zona azul, zona verde, pelas “casas”, pela Universidade Federal do Pará (UFPA), pelo Museu Goeldi e literalmente marchei (Marcha dos Povos). Havia contrastes marcantes, mesmo dentro da zona azul: os espaços de negociação, os pavilhões e as salas de eventos paralelos. No espaço das negociações, havia mais silêncio e ar-condicionado (mais frio), mas era possível sentir a tensão no ar — pessoas correndo de um lado para o outro, sorrisos meio sem graça e testas franzidas. Já nos pavilhões, havia muito mais barulho, o ar-condicionado não funcionava tão bem, diferentes estímulos visuais, certa desordem, filas para café gratuito e brindes, palestrantes competindo por atenção— como eu mesma, participando de dois painéis.

Nos pavilhões, não senti tensão; ainda via pessoas correndo, mas estavam mais relaxadas. Havia mais caos, mas muitas coisas interessantes aconteciam simultaneamente. Por exemplo, no segundo dia (11/11/2025), eu estava passeando pelos pavilhões e acabei no estande de “Ciência Planetária”. Era o lançamento do “Relatório de Avaliação da Amazônia 2025: Conectividade da Amazônia para um planeta vivo”. Cada capítulo era apresentado e discutido por um dos autores. Minha atenção foi imediatamente capturada quando ouvi as palavras “território, territorialidade e bem-viver”. Um dos autores destacou a importância dessas noções para construir pontes entre os saberes e que as soluções vêm do território. Eles reconheceram que essas “soluções” são formas de conhecimento, de modo que aquele capítulo não era uma revisão da literatura, mas uma validação do conhecimento onde ele é produzido. A palavra “território” foi repetida diversas vezes durante a apresentação. Outro ponto foi a necessidade de distinguir os povos afrodescendentes dentro da ampla categoria de comunidades locais, como uma reivindicação dos próprios afrodescendentes para enfrentar a invisibilidade. Assim, as palavras que eu queria ouvir: Amazônia, territórios, povos, bem-viver, não foram encontradas em outros lugares, mas sim nos espaços de negociação. Essa constatação serviu de inspiração e me guiou durante a COP 30: eu teria que circular por diversos espaços (ver mapa).

Mapa da cidade de Belem, guia para a COP30.

Como se pode ver no mapa, a COP 30 permitiu-me circular por Belém para além das zonas azul e verde, e observar diversos espaços: as “casas” (Casa do Sul Global, Casa Balaio), o Museu Goeldi, a Cimeira dos Povos, a Marcha dos Povos, a zona agrícola (Embrapa), a Aldeia. Também circulei bastante dentro da zona azul, entre salas de negociação, comunicados de imprensa, eventos paralelos e eventos nos pavilhões e na zona verde. Olhando para o mapa, também percebi onde não estive: a zona livre, a zona amarela ou o que não vi muito: o rio, a barcaça… e a floresta, que só experimentei de forma fragmentada na Embrapa ou como amostras de florestas no Museu Goeldi.

E foi lá, no Museu Goeldi, que ouvi as palavras mais inspiradoras, as de Davi Kopenawa. Na “Embaixada Planetária” (Imaginando a Diplomacia Planetária, 13 de novembro de 2025). Primeiramente, a sorte me ajudou. Eu não havia me cadastrado, mas milagrosamente me permitiram entrar (o sistema estava offline). Estava lotado e tive que ficar em pé por mais de duas horas com pouco espaço para me mover, mas suas palavras e toda a atmosfera, a umidade das árvores, os pássaros, simplesmente me mantiveram ali, como se eu estivesse sob um encantamento. Primeiramente, como Kopenawa se identificou: “Sou um filho da floresta, filho de Omama”. Para os Yanomami, Omama é quem criou a floresta e a protege (guarda e defende). “Nós vivemos lá na floresta. Todos nós vivemos no mesmo mundo, uma grande terra”. Kopenawa também destacou que nós (“pessoas brancas”) somos as principais ameaças à floresta. Aqui, creio que ele se referia às formas de ser e conhecer nas cidades, pois também mencionou que é difícil “retornar à floresta” por causa das luzes da cidade e tudo o que a vida urbana implica. “Você tem medo de voltar para a escuridão”. As pessoas nas cidades são viciadas em combustíveis fósseis e na iluminação pública. Essa afirmação me fez pensar por que é tão difícil fazer a transição, ou encontrar caminhos para uma “mudança transformadora para a sustentabilidade”, e me questionar sobre a forma como eduquei meu filho e, mais do que isso, se é realmente possível “retornar à floresta”. Como temos escrito sobre (florestamento), o que significa retornar à floresta?

Verônica: As perguntas que ficam

Eu comecei a escrever estas notas no aeroporto de Belém, depois de 13 dias lá. Chovia enquanto eu caminhava até o aeroporto. A chuva deixa tudo mais verde, mais úmido, mais quente. Sinto-me conectado ao lugar. Minha cabeça gira enquanto tento organizar meus pensamentos — o mundo não precisa de mais um resumo, mais uma lista de tópicos sobre o que foi acordado, expectativas versus realizações. Mas tenho perguntas.

Sobre a COP

Vale a pena realizar esses megaeventos — tão caros, que entregam muito menos do que poderiam? Não apenas em termos de grandes acordos políticos, mas também em termos de eficiência processual básica. Como ainda temos decisões por consenso nas COPs? O multilateralismo tem alguma chance em 2025 quando se trata de mudanças climáticas? Ainda temos alguma chance contra as mudanças climáticas?

Como nós — como mundo — podemos ter uma chance se nem todos compartilham a mesma pressa?

Qual o papel da ideia de desenvolvimento nas salas de negociação? Será este o conceito que molda o imaginário de todas as partes do mundo consideradas “insuficientemente desenvolvidas”? O que significa desenvolvimento, afinal? (Talvez eu não saiba, mas nas salas de negociação os negociadores parecem saber muito bem – e sabem que está intrinsecamente ligado aos combustíveis fósseis).

O extrativismo mata

Normalmente, penso na COP como um processo, um evento inserido numa ordem internacional. Mas as questões ali debatidas vão além de procedimentos e processos. Algumas delas questionam essa própria ordem; criam tensão em torno da necessidade de mudar. Há uma reivindicação por um mundo mais justo e menos desigual. E, no entanto, ainda parece o mesmo mundo dominante. China, Arábia Saudita, Brasil — será a chamada perspectiva do Sul Global apenas mais uma versão de uma ordem mundial conservadora-desenvolvimentista-de um só mundo?

Sobre o Brasil

Como Presidência, fomos arrogantes? Pensamos que poderíamos alcançar mais do que era realisticamente possível? O Mutirão foi mais do que aparentava (parece que foi apenas conversa fiada)? Por que a Arábia Saudita se sentiu tão à vontade na sala? Considerando as posições da União Europeia e da China, tínhamos realmente alguma chance de um resultado diferente?

A Presidência falou tanto sobre participação – no entanto, as portas foram fechadas durante a segunda semana – por quê? Foi uma troca – para chegar a um consenso, tiveram que sacrificar as portas abertas? Se o resultado dessa troca foi a decisão do Mutirão, não parece ter valido a pena.

Qual foi o papel do Presidente Lula durante a COP? Sua presença fez diferença? E quanto a Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente de Lula e referência fundamental no ambientalismo brasileiro? A forma como ambos decidiram conduzir o debate sobre a TAFF – sigla para “Transição para além dos combustíveis fósseis”, uma proposta para acelerar a mudança global para além do petróleo, gás e carvão – alterou alguma coisa? Ou o cerne dos resultados da COP já estava definido pela geopolítica mesmo antes do início das negociações?

Por que Lula se envolveu (ele não é ingênuo a ponto de achar que seria fácil; ele não é ambientalista – é desenvolvimentista – e acredita que os combustíveis fósseis são importantes para o desenvolvimento brasileiro. Ele é um político inteligente e altamente qualificado – por que se envolveu?)

Tenho a impressão de que Lula e o Ministério das Relações Exteriores (ou Itamaraty, como é comumente conhecido o Ministério das Relações Exteriores do Brasil) seguiram estratégias diferentes durante a COP. Lula pareceu mais preocupado com o legado, em deixar uma marca. Itamaraty, por outro lado, pareceu estar focado em não prejudicar a posição histórica do Brasil nas negociações.

Sobre as Pessoas

O que a COP significou para Belém? Para o Brasil? Para a esquerda brasileira? Qual será o legado?

O que significa participação em uma COP? O que significou ter o maior número de indígenas brasileiros na Zona Azul?

A armadilha: garantir a participação e ser visto como ineficaz em assegurar a “segurança” segundo os padrões da ONU; garantir a segurança segundo os padrões da ONU e restringir a participação.

Tantas casas, a Cúpula dos Povos, tantas pessoas em Belém – mas não na Zona Azul. Uma vez que as pessoas estão lá, a COP não se resume à Zona Azul e às negociações diplomáticas. A Zona Azul oferece o palco institucional – a desculpa, até – que ajuda a gerar impulso político. Mas, uma vez que as pessoas estão lá, a COP se resume ao que elas farão com ela. Por vezes, a sensação era de estar no Fórum Social Mundial em Porto Alegre, no início dos anos 2000: a esperança de que outro mundo seja possível, de que seja possível aprender e criar formas de imaginar coletivamente futuros diferentes, de coexistir na diferença. Tudo isso tem a ver com a COP, mas nada a ver com a Zona Azul. A COP é catalisada pelo espaço oficial, mas transborda para além dele – será que alguma dessas esperanças e esforços perdurará após o término da conferência? Após as negociações da COP? Talvez não seja um legado claro relacionado com as alterações climáticas, mas sim com a organização das pessoas.

Vire à esquerda.

[Hannah perguntou: “Quem esses negociadores representam? Não as pessoas”. E ela tem toda a razão. Acho que a COP e as mudanças climáticas tornam explícita a distância entre Estados e povos].

Sobre o território

Uma pergunta, em particular, me intriga: Belém foi apenas o cenário (o pano de fundo) da COP30? Ouvi em um podcast brasileiro que “o espaço da natureza dentro da Zona Azul era meramente decorativo”. Mas e a chuva? E a luta contra o calor, a umidade e o ar-condicionado? E caminhar por essa cidade de beleza singular? E as pessoas? As COPs poderiam ser organizadas em qualquer lugar – mas quando acontecem, não são em qualquer lugar, são territorializadas. No momento em que se escolhe onde sediar uma COP, escolhe-se os portões e os passaportes, os trabalhadores da infraestrutura, a água que as pessoas beberão e o ar que respirarão por duas semanas. O território estava lá — dentro daquele espaço padronizado. Estava nas goteiras, nas fotos da natureza, nas plantas ornamentais, nos cômodos muito quentes/muito frios, no som da chuva, nas pessoas. Na tensão entre a estrutura temporária e a vida ao seu redor. Estava na cidade. A COP se espalhou, cresceu, se integrou a Belém. A cidade — alegre, bela, orgulhosa, preparada.

A cabeça pensa onde os pés pisam.

plantas muito tristes e um tapete molhado.

Dois meses depois.

Outra pergunta (dois meses após minha primeira tentativa de escrever estas linhas): por que é tão difícil para mim entender esta COP? Eu tinha esperanças sobre esta COP. E como anfitriã, sofri — com os incêndios, com as goteiras no telhado. Me senti ofendida por comentários sobre a cidade, sobre o local da COP. Fiquei comovida com a dedicação de tantas pessoas a um evento e, em última análise, a outras pessoas. O colonialismo estava presente de uma forma que eu quase podia tocar. Mas também vi cooperação, solidariedade, gentileza.

Território alimentar: pessoas + terra + sentidos

Estar lá por duas semanas foi tão exaustivo que ainda me custa descrever em palavras. Mas saber que Hannah, Cris e Marcela estavam lá me ajudou a desacelerar, respirar, entender as coisas e me sentir segura. Isso tornou tudo mais fácil.

Como me sinto em relação à COP, dois meses depois? As COPs são sempre decepcionantes, não é? Se considerarmos o desafio e os resultados. Por que esta foi especificamente decepcionante para mim?

Uma COP no Brasil carregava uma promessa peculiar: a de atrito. De vozes que normalmente não circulam nas salas de negociação da COP. A expectativa não era de que a participação social salvaria o multilateralismo, mas que poderia perturbá-lo, impactá-lo ou alterá-lo um pouco.

Não por causa dos “campeões”, dos “enviados especiais” ou dos “círculos” — essas iniciativas pareceram confusas desde o início e nunca me convenceram totalmente do contrário… Mas porque, pelo menos em teoria, implicavam um compromisso com a escuta. Que o reconhecimento, a participação, talvez até algum controle social, poderiam promover mudanças ou perturbar as coisas.

Quando Corrêa do Lago e Ana Toni, CEO da COP (?!), falaram sobre “acelerar a implementação”, já estavam reconhecendo os limites da negociação multilateral. Os limites que Corrêa do Lago explicitaria em sua última carta deveriam combinar negociações (internacionais) (nas COPs) e implementação (em diferentes níveis e envolvendo diferentes atores, incluindo coalizões de países).

Acho que em algum momento me desvinculei do ímpeto geopolítico e sonhei que pudessem chegar a uma decisão sobre algo, porque é tão importante, porque a ciência diz isso. Mas os combustíveis fósseis — o cerne do problema — continuaram sendo cuidadosamente evitados, apesar do esforço de muita gente, incluindo Lula e Marina da Silva. O resultado político foi uma coalizão para discutir os roteiros do TAFF. Então talvez a presidência brasileira esteja certa, e mais uma vez tenhamos que jogar o jogo do copo meio cheio/meio vazio: ruim com as COPs, pior sem elas. Ruim que os combustíveis fósseis não tenham sido debatidos seriamente na COP, pior ainda se não houver coalizão alguma.

Referencias 

Beier, J. Marshall. 2009. ‘Introduction’. In Indigenous Diplomacies, ed. J. Marshall Beier. New York: Palgrave Macmillan US, 1–10. doi:10.1057/9780230102279_1

Marion Suiseeya, Kimberly R., and Laura Zanotti. 2023. ‘Ethnography: From Method to Methodology at Plural Sites of Agreement-Making’. In Conducting Research on Global Environmental Agreement-Making, eds Alice B. M. Vadrot and Hannah Hughes. Cambridge: Cambridge University Press, 186–209. doi:10.1017/9781009179454.011

Strausz, Erzsébet. 2026. Curating Learning Journeys: Transformational Experiences in the IR Classroom and Beyond. Cham: Springer Nature Switzerland. doi:10.1007/978-3-031-57081-0

Vecchiione-Gonçalves, Marcela Vecchione. 2009. ‘Between the Leader of Virtù and the Good Savage’. In Indigenous Diplomacies, ed. J. Marshall Beier. New York: Palgrave Macmillan US, 133–53. doi:10.1057/9780230102279_9

Vecchione-Gonaçalves, M. (2014). Managing Borders, Nurturing Life: Existences, Resistances and Political Becoming in the Amazon Forest. PhD Dissertation, Hamilton: McMaster University. 

Vecchione-Gonçalves, Marcela, and Hannah Hughes. 2023. ‘Stakes: Conducting Relational Research with Indigenous Peoples’. In Conducting Research on Global Environmental Agreement-Making, eds Alice B. M. Vadrot and Hannah Hughes. Cambridge: Cambridge University Press, 74–90. doi:10.1017/9781009179454.006