Neste blog, a Campeã da Juventude para o Clima da Presidência da COP30 ( em inglês – Presidency of Youth Climate Champion – PYCC), Marcele Oliveira, antes e depois da COP30. Marcele foi nomeada pelo Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, em maio de 2025. Essa função representa um passo importante nas tentativas de fortalecer a participação significativa da juventude na tomada de decisões climáticas globais. A conversa explora o que essa função implica, suas responsabilidades e a importância mais ampla da liderança jovem no processo da COP.
1. Como Embaixador(a) Jovem do Clima, qual é a sua missão/papel na preparação e durante a COP30? Quais são as suas expectativas?
O papel de jovem campeão climático dentro da Presidência da COP foi criado na COP28, realizada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, no ano de 2023. O objetivo foi garantir um papel estratégico para ampliar oportunidades de envolvimento da juventude mundial nos debates ambientais e contemplar a perspectiva das crianças e adolescentes nas propostas discutidas dentro das Cúpulas do Clima.
A primeira PYCC (Presidency Youth Climate Champion) foi a Leyla Hasanova, do Azerbaijão, durante a COP29, e o mandato do Brasil é o segundo mandato – no mundo! Aqui o processo se deu via edital de chamamento, onde 154 jovens se inscreveram, e 24 chegaram a uma lista de habilitação.
A nomeação do presidente Lula vem com a responsabilidade de conduzir um caminho de ampla participação social no debate ambiental,dentro e fora dos portões da COP30, liderando o Mutirão Global contra Mudança do Clima pela perspectiva das juventudes, dos nossos biomas, dos povos originários, da América Latina e do Sul Global!
2. Como vocês estão garantindo que jovens da Amazônia e de todo o Brasil façam parte desta COP?
Eu sou a segunda pessoa no mundo a ocupar esse papel. Quando o Brasil anuncia um processo seletivo, na verdade, em vez de nos inscrevermos individualmente, a gente se organiza enquanto movimento de juventude. A gente conseguiu se organizar e entender que era importante que fosse uma pessoa de periferia, que fosse uma pessoa negra ou indígena, e, a partir desse contexto, a gente foi também construindo a ideia de que, independentemente de quem fosse, seria importante que houvesse um time de pessoas jovens com essa pessoa.
Na verdade, eu fui a pessoa que foi nomeada, mas muitas das pessoas que participaram dessa seleção trabalham no nosso mandato ou estão na nossa rede de mandato. Então, a ONU estabeleceu de uma forma, e a gente já fez de outra, porque a gente está no Brasil, a gente acredita em participação social. E isso é visibilidade pra Amazônia e todos os outros biomas do Brasil. Para mim, é uma honra, uma responsabilidade, mas também é muita felicidade poder ter essa nomeação e ter um mandato com outras pessoas jovens ativistas do Brasil, de todos os biomas, para poder fazer esse mandato ser mais representativo. E a gente chama de mutirão o reconhecimento dos tantos projetos das juventudes que existem e que protegem a natureza, o meio ambiente, os ecossistemas; mas que não têm credencial de levar ao [debate] internacional aquilo que é feito no território. Porém, o que é feito no território é o que de fato garante a adaptação climática que tanto se fala no internacional.
3. Por que o envolvimento dos jovens é importante nas discussões sobre ações climáticas em 2025?
As juventudes e as infâncias estão entre os grupos mais afetados pela crise climática. Apenas em 2024, o estudo realizado pelo UNICEF, intitulado Learning Interrupted: Global Snapshot of Climate-Related School Disruptions in 2024, revelou que, em 85 países, pelo menos 242 milhões de estudantes tiveram suas rotinas escolares interrompidas por eventos climáticos extremos — como ondas de calor, ciclones, tempestades, inundações e secas. Diante desse cenário, torna-se mais urgente do que nunca incluir as vozes de crianças, adolescentes e jovens nos processos decisórios sobre o clima. Afinal, são esses grupos que já sofrem — e continuarão sofrendo por mais tempo — os impactos das mudanças climáticas em sua saúde, educação, emprego e renda.
Em todo o mundo, a juventude já está liderando iniciativas que trazem debates técnicos e necessários, como: Adaptação climática; Racismo ambiental; Revisão das NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas); A necessidade de financiamento, cultura, inclusão e escuta efetiva das novas gerações. Seja por meio de conferências locais e regionais (como as COYs e LCOYs), da atuação em espaços de influência — como o GT de Juventudes da Frente Parlamentar Ambientalista — ou por meio de organizações da sociedade civil, jovens e crianças já estão construindo soluções. No entanto, não basta sermos tratados como meras figuras decorativas em eventos. Precisamos de espaço real de participação, onde nossas ideias sejam incorporadas às políticas públicas. Há infâncias e juventudes transformando o mundo — só precisam ser ouvidas e consideradas tanto na decisão quanto na discussão.
4. O que você espera que os jovens levem da COP30?
Precisamos olhar com carinho para o nossos contextos, as nossas cidades, os nossos bairros. Entre rios e mares, não podemos nos deixar isolar pelo concreto e pelas condições precárias de estudo, trabalho e existência a que estamos sujeitos. É necessário políticas públicas com a perspectiva da justiça climática, racial, econômica e de gênero para nossa geração e ao mesmo tempo é necessário nossa participação nessas construções. Precisamos abandonar essa cultura de destruição e fim do mundo que está colocada e nos mover no sentido de utilizar, por exemplo, a criatividade e as expressoes artísticas como 1) estratégia para denunciar violências, negligências e absurdos e 2) plataforma para promover ondas de conscientização e combate a desinformação, promovendo um mutirão protagonizado pelas juventudes e que pode muito mais do que só alavancar a pauta climática. É a nossa vez, juventudes diversas e cada uma da sua forma, de dizer em que mundo queremos viver pelos próximos anos. O meu futuro é mais verde, com mais valorização das culturas tradicionais, com mais parques verdes nas periferias e mais dinheiro nos projetos liderados pelas juventudes! Espero que terminemos a COP com o Mutirão das Juventudes acontecendo na prática.
5. Agora que a COP terminou e você pode refletir sobre ela e sobre o seu papel, consegue identificar uma das lições mais valiosas que aprendeu?
A maior lição da COP30, pessoalmente para mim, para Marcele e para o mundo, é a importância das mobilizações vindas da sociedade civil, das comunidades originárias, das juventudes, de quem historicamente não está dentro das salas de negociação. Muitos dos principais momentos das duas semanas de COP30 foram protagonizados pela sociedade civil e se relacionaram com pedidos claros às negociações, como: o afastamento dos combustíveis fósseis, a demarcação das terras indígenas e o financiamento climático para a adaptação.
Apesar de muito conectadas, essas agendas são frequentemente colocadas e compreendidas externamente como paralelas, e não como complementares. A COP30 no Brasil deixou uma grande lição: não é possível fazer um debate climático e ambiental sem quem enfrenta a crise no dia a dia e constrói soluções no campo local.
6. Que conselho você daria à próxima pessoa que assumir o papel de Jovem Embaixador do Clima?
Por ser um cargo recente e ainda em consolidação, um espaço de juventude carrega o desafio de construir um plano de trabalho que deixe legado, metodologia e reconhecimento para as diferentes formas de lutar e de cobrar respostas do regime multilateral. Ter coragem para ser criativo e sagacidade para compreender onde podemos pressionar é importante e faz diferença. No entanto, é a rede coletiva de juventudes ao redor do mundo que é incansável. São as grandes aliadas dessa construção e, sem elas, simplesmente nada aconteceria. Trabalhar de forma coletiva é a chave.
