Compreendendo a desterritorialização ao aprender a reflorestar nossas mentes  

A ponte de pedra sobre o riacho. Imagem de Dartefacts.: https://dartefacts.co.uk/dartefact/harbourneford-clapper-bridge/ (10/03/2025).

Em nosso último blog, Cristina levantou a pergunta: será que é realmente possível “retornar à floresta”? Como temos escrito (foresting, Inoue et al. 2025), o que significa retornar à floresta? 

Quero trazer as perguntas de Cristina para dialogar com questões que venho fazendo a mim mesma sobre desterritorialização, e abrir este espaço para que outros membros da equipe do projeto reflitam sobre suas próprias compreensões e trajetórias de vida multiterritorial. Ao olhar para mim e para outros membros da equipe, há uma relação compartilhada de deslocamento entre territórios. Pelo menos de fora, parece que nenhuma de nós incorpora um único território como lar. Cada uma de nós se moveu e foi movida de um lugar para outro e, nesse sentido, pode-se dizer que incorporamos relações multiterritoriais e somos moldadas, em diferentes formas e graus, por um mundo dominante. Pensar os territórios a partir de produções acadêmicas indígenas e de pesquisas realizadas com comunidades indígenas trouxe à tona a distinção entre territorialização e processos de desterritorialização. 

Cris e eu fomos juntos de Uber até o Museu Goeld para assistir a uma fala de Davi Kopenawa, num evento que constava na programação da SPA. Ao sairmos do carro, notei um casal montando sua barraca de frutas. Um pouco afastada da barraca, na calçada, havia uma caixa de papelão achatada. A filha deles era pequena, talvez ela tivesse uns seis anos de idade, e estava prestes a se sentar e se acomodar para esperar os pais terminarem suas vendas. Percebi que ela havia colado um pedaço grosso de fita adesiva transparente sobre a boca. Talvez ela a tivesse arrancado da lateral da caixa. Ver seu rostinho doce coberto com fita adesiva me comoveu. Me senti emocionada. Continuei andando para entrar no evento. 

“Para Cristina, Flecha Para tocar o coração da sociedade.”

O evento estava lotado. Como não tínhamos reservado oficialmente, tivemos que ficar atrás de fileiras de assentos cuidadosamente posicionadas e alinhadas. Havia uma sensação de estar perto do centro e, ao mesmo tempo, mais ao fundo, e nós estávamos mais ao fundo, observando do perímetro. Tentamos encontrar um bom lugar o mais perto possível. Cris e eu somos baixas, então precisávamos encontrar as pessoas certas para ficar atrás delas e ver por entre seus ombros. Mas aí eu precisei de um tradutor. Um homem estava distribuindo fones de ouvido e eu saí do meu lugar para encontrá-lo e pegar o tradutor. Quando voltei, estava ainda mais lotado e eu não sabia bem como me encaixar. Tentei me espremer de volta ao lado de Cris, e uma mulher havia ocupado meu lugar. Ela se manteve firme e Cris a cutucou. Me senti espremida entre elas. Eu senti uma emoção e que eu estava à beira do colapso, esse sentimento chegou ao limite e eu não consegui contê-lo – transbordou tudo. O problema é que há tanta emoção que, uma vez que começa, isso pode sair do meu controle. Então me preocupo com o efeito que isso terá sobre as pessoas ao meu redor – quero controlar essa emoção rapidamente. Cris me viu e me abraçou, e a sensação começou a melhorar e eu comecei a me sentir melhor. Eu fechei os olhos e apenas consegui ouvir as palavras de Davi Kopenawa – para que eu me sentisse mais calma e eu pudesse retornar a elas mais tarde. 

Suas palavras trouxeram de volta um tema que vinha circulando há algum tempo, tornando-se mais nítido à medida que eu lia Territories of Difference: Place, Movements, Life, Redes (2008), de Arturo Escobar. Ver as relações indígenas com o território como uma relação profunda e inseparável com a terra trouxe à tona questões sobre como e por que eu não tenho essa relação — por que não me sinto como uma continuação das relações terra-mar-céu. Quando e como me tornei desterritorializada? A história de Davi Kopenawa sobre deixar o território e sua visão sobre a cidade e o que ela faz com as pessoas, como Cris descreveu, cristalizou isso em uma pergunta: por que eu deixei meu território? Por que não fui territorializada? 

Quando estive na COP, compartilhei com Cris e Verônica uma das histórias que me voltou à memória ao questionar minha própria desterritorialização. Quando eu era mais nova, eu brincava no riacho ao pé da colina onde morávamos. Vivíamos em um pequeno vilarejo de cerca de 12 casas, entre terras agrícolas pertencentes a diferentes fazendas ao redor, na borda do Parque Nacional de Dartmoor. O riacho era uma das áreas mais selvagens entre um vale de campos de grama, usados principalmente para pastagem de ovelhas, uma fazenda leiteira e a produção de palha e feno. Preocupei-me com o meio ambiente desde que me lembro e me preocupava com a terra ao nosso redor. Um dia, ao descer nossa colina, notei um fazendeiro despejando uma água marrom para o riacho com o seu trator. Fiquei horrorizada e impotente. 

Eu sentia que a terra ao meu redor estava se degradando; sendo degradada. Mais estradas, mais carros, mais de tudo — e um descuido generalizado. Uma das coisas que trouxe essa memória de volta foi ler o trabalho de Escobar sobre território e desterritorialização e começar a questionar minha própria relação com o lugar. Perguntei-me por que eu não vinha de uma cultura que tivesse uma relação com a terra — um cuidado por ela — por que eu não permaneci naquela terra e lutei por ela? 

Vislumbrei a verdadeira dimensão da luta territorial — permanecer e lutar para manter sua relação com a terra — por meio do livro de memórias de Nemonte Nenquimo (We Will Not Be Saved, Nenquimo e Andersen, 2024). Eu fiquei pensando nisso, mesmo eu não sendo indígena, durante a fala de Davi Kopenawa. Davi estabeleceu uma distinção entre mim e ele, clara como a luz do dia: ele, indígena da floresta; eu, produto de uma cultura que devastava a dele. A cultura dele, ao contrário da minha experiência, era capaz de ver, ouvir e cuidar das árvores, da terra, da água — mantinha uma relação com elas. Ele destacou uma característica marcante da minha cultura colonial — sua desterritorialização. Apontou que, quando as pessoas da cidade se aposentam, deixam aquele lugar e vão para outro. 

Por que eu deixei a terra que amava? Por que não impedi a degradação da minha terra? E lutei para proteger o que ela era? E restaurá-la ao que poderia ser? Eu precisava sair, é verdade; precisava crescer e viver, e aquilo não era possível ali. Eu não tinha o conhecimento nem as palavras para convencer um fazendeiro; tinha apenas emoções — cuidado, medo, amor — e isso não teria sido valorizado. Mas o problema não era apenas um fazendeiro despejando seus dejetos no rio; isso estava acontecendo em todos os lugares, em todos os rios — cursos d’água belíssimos, alguns dos últimos espaços verdadeiramente selvagens na paisagem — sujos diariamente pelos resíduos e subprodutos de um modo de vida destrutivo, em toda parte. Uma escala e um problema que eu não poderia enfrentar em um único fazendeiro, e que um único fazendeiro não poderia resolver sozinho. Hoje consigo entender e articular isso — trata-se de um problema sistêmico. Eu precisava partir para aprender e para me transformar de produto de um sistema destrutivo na possibilidade de me tornar parte de um sistema vivo. 

Referências 

Escobar, Arturo. 2008. Territories of Difference: Place, Movements, Life, Redes. Duke University Press. doi:10.1215/9780822389439. 

Nenquimo, Nemonte e Mitch Andersen. 2024. We Will Not Be Saved. Londres: Wildfire.