COP30 no coração de Belém

Cheguei em Belém na madrugada de quinta-feira. Queria chegar antes do início das negociações para ver se conseguia acompanhar a abertura do evento a partir da perspectiva da cidade.

A decisão de sediar a COP30 na Amazônia, anunciada pelo presidente Lula na COP27 em Sharm-el-Sheikh, foi controversa. Mas, ao caminhar pelas ruas quentes e úmidas de Belém nos últimos dias, fiquei com a sensação de que a Amazônia é exatamente onde a comunidade climática global precisa estar.

Por que Belém?

Pode ser surpreendentemente difícil vivenciar a cidade-sede durante uma COP. Normalmente, eu a vejo por meio do transporte do aeroporto, do trajeto diário até o local do evento e da busca por um local para jantar. Em Belém, não é assim.

Primeiro, é uma cidade de médio porte e não há como separar o evento e seus participantes da vida real da cidade – eles estão lado a lado. Segundo, os tipos de hotéis em que os delegados gostam de se hospedar são escassos e muitos já estavam lotados há um ano. Os moradores estão hospedando pessoas em suas casas e alugando seus apartamentos. Esta é uma COP no coração da própria cidade.

Ter as negociações situadas na cidade dessa forma é um lembrete para os delegados e para aqueles que assistem de fora de onde vem a dicotomia entre países desenvolvidos e em desenvolvimento nas negociações climáticas da ONU e por que ela ainda é relevante. Isso pode ser esquecido quando a conferência é realizada em bairros de cidades do Sul Global que se parecem muito com seus equivalentes no Norte Global. Ao caminhar pelas ruas arborizadas da cidade, você se lembra que as responsabilidades comuns mas diferenciadas (CBDR), são tão importantes para alguns governos agora quanto quando a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) foi estabelecida no Rio em 1992.

Isso é fundamental para uma COP que deve abordar a divisão entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, que continua sendo o principal obstáculo para garantir coletivamente que o mundo permaneça bem abaixo de 2 graus de aquecimento global. Os países desenvolvidos têm responsabilidades históricas de liderar a descarbonização da economia global e fornecer o financiamento e a tecnologia que permitam aos países em desenvolvimento mitigar e se adaptar às mudanças climáticas nas quais estamos presos devido às emissões passadas de gases de efeito estufa.

O coração da cidade

Parece que toda a cidade está voltada para sediar esta COP. Nem sempre é assim. A COP28 em Dubai, por exemplo, foi um evento entre muitos outros na agenda lotada da cidade. Na época, senti que as negociações climáticas da ONU deveriam ser apresentadas dessa forma — não como o único ou o mais importante evento da cidade. E, na COP27 em Sharm-El-Sheikh, o resort em que eu estava hospedada estava mais lotado de turistas do que de delegados da COP. Aqui em Belém não é assim.

Na quinta-feira à noite, minha anfitriã me levou aos bastidores dos preparativos da cidade. Ela prometeu me levar ao parque, mas, no caminho, paramos na gráfica dela. É complicado saber exatamente o que realmente está acontecendo quando a comunicação é pelo Google Tradutor. À espera, junto à porta, havia uma pilha de cartazes. Colocamos os cartazes na parte de trás do carro e seguimos viagem.

Poster sendo feito para a COP30.

Fiquei nervosa ao atravessar a cidade enquanto ela dirigia, conversava comigo e conduzia seus negócios ao telefone. Os líderes mundiais estavam na cidade para a Cúpula de Chefes de Estado da COP30, como evidenciado pela presença policial e pelo controle de tráfego.

A greenzone send preparada.

Por fim, chegamos ao Parque da Cidade. Descobri que ela estava me levando ao local da Zona Verde da COP30. A Zona Verde é aberta ao público e é onde a sociedade civil, o setor privado e os governos podem apresentar, compartilhar e discutir diversos aspectos da ação climática. Deixamos os cartazes e eu caminhei pelo local em construção.

Ao passar pela cidade, minha anfitriã compartilhou suas crenças e opiniões políticas comigo. Ouvi atentamente uma perspectiva contrária ao presidente Lula. Ela me disse o quanto ama sua cidade e que claramente acolheu a chegada da COP30, mas não mencionou as mudanças climáticas.

Enquanto estávamos dirigindo para casa, ela apontou para uma praça, a Praça Batista Campos, e me disse para caminhar até lá pela manhã. Eu fui. Vi e senti o cheiro das garças e do pequeno bosque onde elas viviam. A vida selvagem da cidade é profundamente afetada pelo atual modelo econômico global, que devastou seu habitat, poluiu sua água e aqueceu o ar.

As complexidades e contradições exibidas na cidade-sede da COP30 são facilmente ignoradas nas reportagens sobre o clima. No entanto, temo que, se não começarmos a contar nossas histórias climáticas a partir da perspectiva de todos aqueles que vivem essa realidade — incluindo os habitantes de uma cidade —, até mesmo esses pequenos refúgios possam se perder.

Vagando pelas ruas, fiquei imaginando como o coração de Belém se abriu para receber a COP30. Espero que os visitantes sejam gentis e respeitosos com esta bela cidade amazônica.

A cidade abriga muitas garças-brancas. Fotografei esses pássaros enquanto caminhava ao longo de um dos canais da cidade em direção ao Jardim Zoológico da Amazônia.